Alemanha constrói moderna arena por apenas R$ 135 milhões
 

Coface Arena, com 34 mil lugares, segue exigências da UEFA; o Itaquerão, em São Paulo, custará seis vezes mais 

Augusto Diniz

A recém-inaugurada Coface Arena, em Mainz, Alemanha, é exemplo de construção de um moderno estádio de futebol de padrão internacional sem gastar muito. O novo espaço, pertencente à prefeitura da cidade onde está localizado, teve recursos totais de R$ 135 milhões, incluindo obras no entorno. Cerca de 50 operários trabalharam na obra.
O estádio de Mainz, que passou agora a sediar os jogos do time local — o FSV Mainz 05 — na primeira divisão do Campeonato Alemão e na Liga Europa (torneio continental organizado pela União das Federações Europeias de Futebol – Uefa), não fica atrás em conforto, serviços, acessibilidade, e estrutura geral de atendimento aos times, imprensa, torcida e vips das arenas exigidas pela Fifa para Copa do Mundo de 2014 no Brasil. A Coface Arena segue o caderno de encargos da Uefa para receber partidas de futebol internacionais e tem características de uma arena multiuso. Com isso, no local, poderão ser realizados eventos diversos além do futebol.
A obra começou no dia 5 de maio de 2009. Dois anos depois, no dia 3 de julho de 2011, foi inaugurada. Ela substitui o antigo Bruchweg, estádio que fica próximo da nova arena e até a temporada passada recebeu durante oito décadas as partidas do Mainz 05.
 
Formato inglês
Quando em 2007 decidiram construir o novo estádio do Mainz 05, a meta clara era projetar uma arena para mais espectadores, infraestrutura moderna, uso multifuncional e a custo competitivo. Para por em prática este plano, foram contratadas a construtora HBN Stadium & Arena Construction GmbH  — empresa especializada em obras nessa área pelo mundo, como os estádios Soccer City e Nelson Mandela, ambos utilizados na Copa do Mundo da África do Sul, além de outros usados no Mundial da Alemanha, em 2006 —  e a AGN Niederberghaus & Partner — empresa de arquitetura também detentora de larga experiência nesse segmento.
“As demandas na construção de estádios têm mudado nos últimos anos. No passado, muitos ‘elefantes brancos’ foram construídos. Tratava-se de estádios gigantes que, pela sua única proposta, tinham vida somente poucas vezes ao ano. Hoje, operadores de estádios querem desenvolver eventos que atraiam visitantes durante toda a semana”, explica Stefan Nixdorf, arquiteto da AGN que projetou a Coface Arena.
A capacidade do novo estádio é de cerca de 34 mil espectadores, sendo aproximadamente 19 mil lugares sentados e 13,8 mil em pé (conversíveis para cerca de 7 mil assentos em jogos internacionais), com cobertura total dos torcedores contra intempérie, além de 100 lugares específicos para deficientes e 150 assentos na tribuna de imprensa. O valor de construção e as facilidades oferecidas aos torcedores impressionam — e servem de alerta aos brasileiros.
De acordo com o arquiteto Nixdorf, há na Europa, hoje, enorme pressão para a construção de arenas viáveis economicamente. “Além de lugares aos espectadores, é preciso oferecer espaço adicional com lojas e facilidades para encontros e congressos”, expõe.
A nova arena alemã segue o tradicional modelo inglês de estádio de futebol, com quatro módulos retos de arquibancada, íngremes e muito próximas ao campo. O conjunto de arquibancadas, visto de cima, forma um retângulo ao invés de uma estrutura circular ou em anel, como é mais conhecido no Brasil. No caso da Coface Arena, cada arquibancada é moldurada do lado externo por um enorme arco vermelho em formato de gol. A entrada principal está localizada em um dos extremos da arena.
 
A distribuição dos espaços
A área útil da nova arena alcança 45 mil m². O estádio possui 200 m de comprimento e 160 de largura. Na construção, foram consumidos 36 mil m³ de concreto pré-moldado, de resistência C30/37. O uso deste material — 65% da construção - permitiu que a arena fosse erguida em curto espaço de tempo.
A terraplanagem do local ocupou os primeiros meses da obra. Depois, iniciou-se a montagem das estruturas com a fixação de cerca de 700 pilares de diferentes tamanhos – processo que durou três meses já sob neve do rigoroso inverno alemão. Em seguida, foram gastos mais três meses para montagem das lajes planas, que absorvem diretamente as cargas dos pilares de sustentação das arquibancadas. Neste mesmo período, foram procedidas as instalações hidráulicas e elétricas.
Dando sequência aos trabalhos, foram gastos mais seis meses à construção de três módulos de arquibancada — o estádio de Mainz é dividido em quatro módulos retos de arquibancada. Estes três módulos foram construídos somente com elementos pré-fabricados, como vigas e lajes onduladas.
A montagem das grandes colunas, que vista de fora formam um enorme arco em forma de gol, localizadas na parte de trás de cada uma das quatro arquibancadas, foi o grande desafio da obra devido o seu transporte e a necessidade de elevação às estruturas do estádio.
A principal arquibancada da Coface Arena tem cinco níveis. Na parte alta desta encontra-se uma área vip de 2.900 m² — 40 m de comprimento, sendo 24 m de profundidade e 13 m de altura — com três níveis. A aplicação do sistema de parede dupla foi largamente utilizada na composição do espaço. As paredes duplas variam de espessura de 18 a 30 cm, altura de 3 a 5,50 m e comprimentos variados. Guindastes com capacidade para 100 t içaram esses elementos pré-fabricados na montagem das estruturas do estádio.
No primeiro nível (o mail alto) da arquibancada principal foi construído um terraço panorâmico de 200 m², com duas fileiras de assentos para 90 pessoas. Este local possui ainda um estúdio de tv panorâmico com vista para dentro do estádio.
A área vip da arquibancada principal, com acesso por escada ou elevador, oferece no segundo nível, com 800 m², 2.100 lugares e mais 600 distribuídos em 29 camarotes (para até 20 convidados) para clientes corporativos e convidados, e ainda 150 lugares à imprensa, inclusive para uso de equipamentos de transmissão de tv. A mesma área possui também restaurante para 200 pessoas (de funcionamento diário, com ou sem atividade na arena). A área vip pode ainda se transformar em salas de reunião e local para outros eventos e congressos.
Em outro nível da arquibancada principal há 2.450 assentos (sem acesso à área vip), distribuídos em 23 fileiras. Embaixo desta arquibancada se encontra lojas diversas, sala de imprensa com 800 m², administração e até espaço para oração dos jogadores. O vestiário do time da casa tem 340 m² e do visitante, 190 m².
Na arquibancada atrás do gol, do lado esquerdo da arquibancada principal, encontra-se posição para 11,5 mil pessoas em pé distribuídas em 82 fileiras – conversíveis em assentos para cerca de 7 mil torcedores em jogos internacionais. Trata-se de uma das maiores bancadas para torcedores em pé da Alemanha. Esta área possui quatro túneis que levam ao nível de saída do estádio, permitindo deixar o local rapidamente.
Na arquibancada oposta à tribuna principal estão 9 mil assentos, sendo 2,6 mil de bancos rebatíveis localizados na parte inferior do local. Na intersecção entre os assentos superiores e inferiores encontra-se fileira com cerca de 100 lugares dedicados exclusivamente para deficientes, com assentos extras para seus acompanhantes. Por fim, na arquibancada do lado leste, estão mais 6.150 assentos (2.150 para a torcida visitante) e ainda 1,2 mil lugares em pé também para a torcida visitante.
A cobertura do novo estádio é de estrutura metálica com painéis de metal ondulado com 8 m de largura. Uma membrana translúcida — cada painel medindo 2,5 m — complementa a cobertura, que conta com 11 mil painéis fotovoltaicos para captação de energia solar, que é utilizada no próprio ambiente e em 250 residências próximas ao local. Do solo até a cobertura, são 25 m de altura.
 
Preocupação com a mobilidade urbana
A construção do estádio incluiu um plano viário, que regula a entrada e saída de até 34 mil torcedores em dias de jogo. O entorno do local conta com um terminal de ônibus especial para desembarque de até 24 mil torcedores em dias de eventos. Os ônibus que ali estacionam ligam o terminal à avenida Saar, uma das principais da cidade de Mainz e que fica a cerca de 1 km da Coface Arena. O custo da construção do terminal de ônibus está dentro do orçamento total gasto para a construção da arena.
Os estacionamentos de carros se espalham em vários lugares ao redor do estádio, como o campus da Universidade de Mainz (2,4 mil vagas); antigo estádio de Mainz (600 vagas); centro de exposição Mainz-Hechtsheim (2,5 mil vagas), com transporte de ônibus até o estádio; e no próprio estádio (1.100 lugares para portadores de licença especial). Para os torcedores que irão de bicicleta, nas imediações existem 1,2 mil vagas em estacionamento específico.
O nome Coface Arena vem de um acordo até 2015 de naming rights (concessão de uso de nome) do proprietário do estádio com a Coface, empresa de Mainz e uma das líderes no mercado alemão de gestão de crédito corporativo (a empresa atua no Brasil desde 1998).
 

Estrutura pré-moldada diminui custos e prazo

Obras utilizando estrutura pré-moldadas são amplamente empregadas nos países desenvolvidos. Na construção de estádios de futebol na Europa é quase rotina. Baixa intensidade de mão de obra, rápida instalação e diminuição de risco de estouro de orçamento impulsionam o uso da tecnologia lá fora. No Brasil, a política de desenvolvimento apoiada na construção tradicional e a dificuldade de transporte dos materiais pré-moldados da fábrica ao canteiro de obras – principalmente devido às péssimas condições das estradas e a falta de infraestrutura no País para operar com grandes cargas; cada peça pode ter variado peso em t/m³ – inibem o uso mais amplo do sistema.

Na construção da Coface Arena, em Mainz, Alemanha, o pré-moldado foi decisivo do ponto de vista de prazo e custo. De acordo com a construtora, a distância entre a planta e o local de fabricação das peças de concreto pré-moldadas era de 360 km. Apesar disso, valeu a pena.

No caso da chamada área vip da Coface Arena, foi empregado largamente o sistema de paredes duplas, um material também pré-moldado, mas com características bastante específicas e altamente adequadas em áreas que exigem a distribuição de vários compartimentos.

O sistema de paredes duplas é formado por duas lâminas de concreto ligadas por treliças metálicas, que podem ser preenchidas no vão entre elas, dependendo da função do projeto, por concreto, poliuretano, EPS, borracha reciclada etc. O material ainda dispensa reboco, podendo receber pintura diretamente na superfície — e as aberturas para instalações hidráulicas, elétricas, ventilação e vãos funcionais (portas e janelas) podem ser feitas ainda na fase de projeto. No entanto, não é necessário que o projeto de arquitetura da obra indique o uso do sistema.

A brasileira Sudeste foi a primeira empresa a criar uma fábrica de paredes duplas na América Latina. A unidade, fundada em 2009 e com 50 mil m², fica em Nova Odessa, na Região Metropolitana de Campinas (SP). O diretor da empresa, Divanir Casagrande, não se espanta com a adoção da tecnologia na Coface Arena. De acordo com o engenheiro, há mais de 200 empresas desse tipo na Europa e a tecnologia é utilizada há 30 anos naquele continente.

“Não é de se estranhar que a arena alemã tenha usado a tecnologia. Trata-se de uma prática muito difundida por lá”, explica Casagrande. “Uma obra desse tipo é feita com a junção de elementos com controle de qualidade e prazos. Isso permite que o orçamento seja cumprido”, acrescenta.

Para ele, o Brasil ainda precisa conhecer a fundo o sistema. “Recebo a visita de muitas empresas. Mas eles continuam com dúvidas. Sugiro deles irem a Europa e conhecer de perto o que eles fazem nesse campo”, conclui.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Fonte: Estadão

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