Inovações construtivas em favor da humanização
 
Desde que foi inaugurado em São Paulo (SP) em 1971, o Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) tem sido uma vitrina de bons projetos de arquitetura e de boas práticas da engenharia em favor do respeito humano e de atenção às condições urbanas da cidade
Ambiente hospitalar requer cuidados infinitos do ponto de vista de sua destinação principal, jamais dispensando o tratamento que a boa arquitetura e as práticas inovadoras da engenharia podem conferir a esses estabelecimentos, em especial por conta do diálogo que eles precisam manter com o entorno. Sob esses aspectos, o Albert Einstein pode ser considerado um modelo. 
Desde que começou a ser planejado, nos anos 1960, para ser inaugurado em 1971, ele agregou a experiência e a acuidade criativa de alguns dos melhores profissionais da arquitetura brasileira. As três principais construções do conjunto, por exemplo, foram concebidas pelos arquitetos Rino Levi, Jorge Wilheim, Jarbas Karman e Domingos Fiorentini. Daquele período para cá, ele nunca deixou de receber ampliações e modernizações, tendo em conta o aumento da demanda, das equipes, da evolução da medicina, que necessita da incorporação, gradativa, de modernos equipamentos, e da melhoria das áreas de circulação, dos espaços para abrigar confortavelmente os pacientes e estacionamentos.
Mais recentemente, o escritório de arquitetura Kahn do Brasil, desenvolveu, em conjunto com a equipe do HIAE, o plano diretor de modernização e ampliação, trabalho iniciado em 2003 e que deverá ser concluído até 2014.
O arquiteto Arthur Brito, diretor do escritório, informa que o plano dimensiona as instalações para o futuro e planeja as ampliações e intervenções dentro de um critério racional, considerando, sobretudo, que os serviços em andamento ou previstos não podem acarretar quaisquer prejuízos para as operações do hospital, em nenhum momento.
A Kahn elaborou o projeto de todas as edificações do plano de ampliação: o pavilhão Vicky e Joseph Safra (obra a cargo da Racional Engenharia); o auditório Moise Safra (obra entregue à responsabilidade da Serpal) e a passarela social e o edifício Reynaldo Brandt (quatro pavimentos e cinco subsolos) que foram construídos pela Hochtief do Brasil. Ao longo de todo o processo, a Kahn assumiu a responsabilidade pelo gerenciamento das obras de ampliação aqui mencionadas, conforme depoimento do arquiteto. 
Segundo o plano diretor, o edifício Reynaldo Brandt recebeu a maior parte das áreas de apoio logístico e de serviços do hospital. Por esse motivo, as plantas foram concebidas de maneira a agregar departamentos amplos e disciplinados, que ganhariam em produtividade em razão dos critérios racionais assim adotados. Houve destaque para as áreas de farmácia, laboratórios, administração e refeitório de funcionários.
As áreas de circulação interna foram planejadas de modo a evitar que pacientes e visitantes cruzassem pelos corredores ou elevadores com carrinhos de estoque ou resíduos. A iluminação natural foi amplamente utilizada nos espaços que se beneficiariam de suas disposições, tais como a administração, o refeitório e o velório. Além disso, o planejamento desses espaços explorou, ao máximo, a vista dos jardins projetados para as coberturas e as áreas externas, e também para a vista dos jardins do Palácio dos Bandeirantes, vizinho do empreendimento. Já as áreas técnicas, para as quais a insolação poderia ser prejudicial, foram objeto de projeto específico de iluminação artificial, embora adotando meios para economia de energia.
O plano diretor, considerando que anteriormente o hospital era carente de jardins externos, pois a área que seria disponível para esse fim fora objeto da demanda por vagas de estacionamento de superfície, previu a seguinte solução para esse problema: projetou espaços para estacionamento nos subsolos, permitindo a criação de jardins em toda a área externa e nas coberturas dos edifícios. “Assim”, diz o arquiteto, “planejamos jardim com área para descanso, contemplação e caminhadas dos funcionários do estabelecimento na cobertura do 4º pavimento; outro jardim com temática própria, para pacientes pediátricos; um jardim ao longo de toda a extensão do 5º pavimento, tendo em vista benefícios térmicos, de controle de descarga de águas pluviais do jardim da cobertura e, no nível de entrada, foi criado um jardim para os visitantes”.  Segundo ele, todo o paisagismo conta com espécies adaptadas ao regime de chuvas da região para minimizar a demanda por irrigação, feita pelo reaproveitamento das águas pluviais.
 
A execução das obras
Escavar cinco subsolos e fazer mais quatro pavimentos acima do térreo. Depois, escavar dois subsolos debaixo do edifício existente e, em seguida interligar a nova estrutura com os estacões criando a continuidade de mais dois subsolos. Esse o problema colocado nas mãos do engenheiro calculista Virgílio Ramos, da Companhia de Engenharia Civil (CIC), a fim de encontrar a solução para aquelas obras, entregues à responsabilidade da Hochtief do Brasil.
O engenheiro informou que resolveu o problema estrutural prevendo laje plana nervurada dimensionada para atender não somente às cargas verticais, como também às reações das paredes diafragma, devido aos empuxos. A transição das forças horizontais dos empuxos, de um lado para outro das juntas, foi realizada através da colocação de neoprenes fretados dispostos verticalmente entre pilares adjacentes.  E, as lajes nervuradas, proporcionaram um pé-direito maior, onde havia vigas, e uma melhor distribuição das instalações.
Quanto às contenções, o engenheiro Eduardo José Portella da Costa, da Portella Alarcon Engenheiros Associados, explicou que devido às elevadas alturas de escavação, da ordem de até 23 m (e de até 6 m submerso) e por causa também da necessidade de serem minimizados as vibrações, ruídos e diminuição de custos, foi adotado o seguinte método construtivo:
- “Implante” de perfis metálicos até a cota do nível d´água, com execução de cortina pré-moldada entre eles e três linhas de tirantes provisórios, conseguindo-se cerca de 12 m de escavação em relação à topografia original do terreno, sem transtornos para as atividades do hospital.
- Depois da primeira etapa de escavação, adotou-se a execução de parede diafragma suportada por quatro linhas de tirantes provisórios. Esta, além de eliminar o problema dos 6 m de escavação abaixo do nível d´água, recebeu o carregamento dos pilares localizados sobre a sua projeção.
- Devido à necessidade de execução da escavação em duas fases, optou-se por deixar taludado o trecho entre elas. Neste trecho, para evitar o fluxo d´água e melhorar a estabilidade dos taludes, foram instaladas ponteiras drenantes.
Posteriormente, para a execução das fundações, foi elaborado projeto específico. A Portella Alarcon solicitou, complementarmente, sondagens à percussão disponíveis e a execução de ensaio de penetração contínua, que indicaram ter o terreno condições excelentes de resistência. Por esse motivo, optou pela execução de sapatas nas fundações.
 
Certificação Leed
A Hochtief do Brasil informou que todas as etapas construtivas – escavação a céu aberto e confinada, num total de 100 mil m³;  contenção; fundações; execução da estrutura com concreto moldado in loco; alvenaria; instalações elétricas e hidráulicas; ar condicionado e acabamento da área administrativa e laboratórios -  tudo foi concluído em 21 meses.  Os serviços foram divididos em duas etapas, atentando-se para o fato que eles não poderiam interferir na rotina do hospital.
Ela informou também que o grande diferencial dessa obra consistiu no fato de que todas as fases da construção teriam de obedecer aos procedimentos da certificação Leed, que prevê a redução dos impactos sócio-ambientais que a construção poderia provocar. Por conta disso, a construtora utilizou materiais recicláveis ou reciclados na estrutura, 40% dos quais provenientes da região; usou madeira oriunda de reflorescimento e geriu a qualidade do ar interior. Segundo a empresa, o Hospital Albert Einstein acrescenta ao seu portfólio mais uma referência no segmento hospitalar, a exemplo das obras que ela já executou para o Hospital Oswaldo Cruz, Hospital Samaritano e Laboratórios Fleury, entre outros.
 
 


sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Fonte: Estadão
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