Vamos contar aqui uma história pontuada de diferenciais. Fundada em época marcada pela inflação galopante e, depois, pelo Plano Collor, a Guimar Engenharia é um caso típico de sucesso de empresa que nasceu pequena, mas devido à sua capacitação técnica, já iniciou suas atividades realizando projetos importantes e complexos
Nildo Carlos Oliveira – Rio de Janeiro (RJ)
A empresa opera hoje com 1.200 colaboradores espalhados por obras em diversas regiões do País. São engenheiros, economistas, administradores, especialistas nas mais diversas modalidades da engenharia, treinados e concentrados no exercício das melhores práticas de gerenciamento. Obteve faturamento da ordem de R$ 145 milhões no ano passado e calcula crescimento de cerca de 25% para este ano. Contudo, nasceu pequena e transformou-se numa das mais conceituadas empresas de consultoria do País.
|
Ela foi fundada em 1990, um começo de década ainda significativo de um período muito difícil da economia nacional. O Brasil vivia aquele processo inflacionário de 28% ao mês – portanto todo dia seguinte ainda constituía uma incerteza – e buscava as condições para superar a aguda carência de investimentos que asfixiava o mercado de obras públicas desde meados dos anos 1980.
A equipe que constituiu a Guimar, liderada pelo engenheiro Cyro de Oliveira Guimarães Filho, vinha de uma base de experiência consolidada por obra industrial de grande porte: ela trabalhara na implantação do Projeto de Expansão da Aracruz Celulose, o maior e mais bem-sucedido projeto industrial da época, com investimentos superiores a US$ 1 bilhão.
“Fundamos a Guimar, empresa brasileira totalmente independente, constituída de 14 acionistas, na forma de sociedade anônima de capital fechado, voltada exclusivamente à gerência de implantação de empreendimentos. Era um sonho que pretendíamos tornar realidade”, afirma o engenheiro Heródoto Ferreira Monte, atual diretor presidente da empresa.
Cyro de Oliveira Guimarães Filho, o fundador da Guimar, havia sido diretor de desenvolvimento da Aracruz e um executivo com notável espírito de liderança. Para construir a expansão daquela fábrica de celulose, implantada no Espírito Santo, ele formou um time técnico de primeira grandeza, reunindo profissionais com experiências múltiplas nas diversas disciplinas da engenharia e gestão de empreendimentos. O logotipo Guimar não deixa de ser uma homenagem à equipe e ao projeto de onde ela adveio: junta o sobrenome do fundador – GUIM, de Guimarães, ao AR, de Aracruz.
A empresa, que iria aprofundar a especialização no gerenciamento de indústrias complexas, infraestrutura e edificações, decidiu que naquele ambiente econômico influenciado pelo processo inflacionário e, logo em seguida, pela escassez de recursos resultante do Plano Collor, teria de se desenvolver sem jamais recorrer a empréstimos junto às instituições financeiras. Cada um dos sócios teria de colocar a mão no bolso a fim de capitalizá-la.
E foi assim, com os recursos de cada um, que ela ganhou fôlego financeiro e conquistou o mercado. Tanto é que foi contratada para ajudar a construir a fábrica da empresa Bahia Sul Celulose S. A., seu primeiro cliente. A equipe formada por Cyro Guimarães, de imediato se identificaria com a equipe de executivos da Bahia Sul, e isso a ajudou a agregar valores do ponto de vista da inteligência e da especialização.
Na época em que a Guimar foi constituída, havia no País grandes empresas de projeto e consultoria com histórico de obras públicas, que por conta da estagnação do mercado de obras de governo, começaram a perder equipes. Esse cenário veio mostrar o que diferenciava a Guimar, em relação àquelas empresas: ela focava a iniciativa privada, sobretudo, em um segmento de atividades muito especializado. Enquanto isso, as empresas de engenharia até então com intensa atuação em obras públicas se aperceberam de que não teriam outra saída, senão migrar para as obras privadas, ingressando num processo concorrencial em que as oportunidades de serviço eram mais reduzidas e, a competição, muito dura.
“Nós estávamos acostumados ao mercado da iniciativa privada, que requer dos contratados respostas ágeis e eficientes, cumprimento de prazos rigorosamente definidos e fiel observância às restrições orçamentárias. Por isso, não tínhamos e nunca tivemos problemas nesse segmento”, afirma Heródoto.
A Guimar, tão logo cumpriu o contrato para a construção da fábrica da Bahia Sul, começou a fazer a expansão da unidade da Brahma (hoje Ambev) em Jacareí (SP). A partir do êxito desse empreendimento, ela se tornou gerenciadora exclusiva para implantação dos novos empreendimentos da marca em todo o País, inclusive, mais tarde, do parque da Brahma, também na Argentina.
A construção da Brahma foi um aprendizado para Guimar, possibilitando um constante aprimoramento das suas práticas de gestão. A vantagem da execução de vários empreendimentos para um mesmo cliente proporcionou à Guimar experiências do ponto de vista de gestão e de comunicação empresarial para resolver, em conjunto, as diferentes interfaces de obras por mais complexas que fossem. Exemplo disso é que a diretoria da Guimar trabalha hoje em uma grande sala, e todos podem trocar ideias, num processo permanente de interação, onde cada um está sintonizado com todos. “Nós aprendemos isso com a Ambev. Não é por acaso que ela é uma grande empresa”, lembra Heródoto Monte.
Os avanços de 1995 até aqui
Aquele período de inflação sem controle e de estagnação muito forte perduraria até 1995, ano em que uma luz foi acesa no final do túnel. No governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que herdara o Plano Real do governo Itamar Franco, começou, enfim, o processo da estabilização da moeda. Ele seria um golpe no processo inflacionário e sinalizaria uma retomada, depois das loucuras que chegaram ao auge com o confisco promovido pelo Plano Collor.
“Quando chegou o momento da mudança, nós estávamos estruturados para isso. Dentro da inteligência da empresa, cada área sabia se posicionar em relação ao mercado, com uma visão crítica e técnica. Conhecíamos os nossos limites e nossos diferenciais. Daquela estrutura originalmente pequena, onde cada um acumulava mais do que duas ou três tarefas, surgia uma empresa pujante, vigorosa e estruturada à busca de novos desafios. Eu, por exemplo, que era diretor de operações respondia simultaneamente pela diretoria administrativa e financeira. E o Cyro, que era presidente, respondia pela diretoria comercial. Era assim que fazíamos”, diz Heródoto Monte.
Sobre a questão de o mercado ser justo ou injusto, ele sintetiza: “Nada disso. Nem justo nem injusto. O mercado quer resultados e eficiência para atingir seus propósitos. Com o conhecimento do que ele quer, nós sempre nos aparelhamos, do ponto de vista da engenharia e das inovações tecnológicas, para atendê-lo”. E lembra que o Brasil começou uma nova fase a partir de meados dos anos 1990.
O governo, naquela época, resolveu enfim acabar com a reserva de mercado no segmento da informática, eliminando de vez um dos elementos de atraso no desenvolvimento tecnológico do país. Apenas para exemplificar os ganhos tecnológicos obtidos, é interessante comparar os prazos de implantação do Projeto de Expansão da Aracruz, iniciado em 1987, com outros empreendimentos realizados posteriormente.
O cronograma do Projeto Aracruz previa um prazo apertado e desafiador de 36 meses para que fosse concluído. Nas circunstâncias da construção, naquela ocasião, era considerado um paradigma (“benchmark”). Hoje, decorridos quase 25 anos, projeto similar ao da Aracruz, com o dobro da capacidade, pode ser executado em até 24 meses, a partir da data de contratação dos principais pacotes que compõem o empreendimento. Naquela época, não se dispunha de avançados sistemas informatizados de engenharia, exigindo que os projetos (básico e executivos) fossem elaborados manualmente em pranchetas. Também, não se contava com modelos diferenciados de gestão de empreendimentos que possibilitassem a intensificação de atividades executadas simultaneamente (processo “fast tracking”).
Adicionalmente, o desenvolvimento tecnológico propiciou exponenciais ganhos de escala dos equipamentos principais e de métodos construtivos. São aspectos importantes que comprovam e caracterizam a evolução da engenharia brasileira. Contudo, no Brasil ainda há muito a ser feito nesta área, integrando as universidades, os centros de pesquisa e as empresas de engenharia, que formam o tripé básico de suporte à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
Em 1995 o presidente Fernando Henrique Cardoso partiu para o processo de concessões e privatizações, inaugurando outro ciclo de possibilidades de novos investimentos. Como a Guimar já vinha de uma tradição de prestação de serviços para clientes privados, viu aí um aumento de suas oportunidades de trabalho. Começou a gerenciar empreendimentos relacionados à infraestrutura e atuar em outros nichos de mercado.
Sempre em busca de novos desafios, e impulsionada pelas crescentes oportunidades de negócio nos países do Mercosul, ela estendeu sua área de atuação à Argentina e à Venezuela.
Em fins de 1990, considerando as oportunidades do segmento de construção e incorporações imobiliárias, os acionistas da empresa constituíram a Guimar Empreendimentos Ltda., que desenvolveu e construiu vários prédios e condomínios residenciais. Em 2002, esta empresa foi incorporada totalmente pela Guimar Engenharia.
O processo de incorporação empreendido, nesse período, pela Guimar incluiu uma reformulação estatuária da companhia. O modelo clássico de gestão deu lugar a uma administração alinhada às melhores práticas de governança corporativa, criando-se, inclusive, o conselho de administração. Segundo o presidente da companhia, esta foi uma das empresas pioneiras no setor de engenharia consultiva no Brasil a adotar inovadoramente estes procedimentos.
Os serviços de consultoria, sobretudo os de gerenciamento global, requerem elevado estágio de especialização. Conforme diz o presidente da Guimar, trabalha-se com investidor que já tem uma ideia concreta do que quer para ativar e ampliar seus planos de negócios. Cabe a gerenciadora o suporte técnico para auxiliá-lo no desenvolvimento e materialização do projeto, atuando em todas as suas etapas, desde a concepção do negócio até o início da operação comercial. A gerenciadora atua no nível tático, ficando com o cliente a responsabilidade pelas decisões estratégicas.
A gerenciadora não executa diretamente o projeto de engenharia (“design”), a construção, a montagem e nem fornece equipamentos e materiais. No âmbito destas disciplinas, ela realiza as atividades relacionadas ao processo de licitação e contratação das empresas projetistas, construtoras, montadoras e fornecedoras de equipamentos e materiais, efetuando também a coordenação das interfaces, o acompanhamento e a supervisão das atividades desenvolvidas por estas empresas, garantindo o cumprimento dos respectivos escopos nas condições contratadas. O gerenciamento da construção (obras civis e montagem, canteiro etc.), da engenharia do projeto e de outras disciplinas são partes do gerenciamento global.
No projeto de seu crescimento, a companhia procurou, conforme relata Heródoto Monte, aumentar o seu leque de produtos, a fim de ampliar a participação da empresa no mercado. Esse leque de produtos soma serviços integrados de engenharia (EPC´s e EPCM´s), tendo ainda em vista uma futura atuação como desenvolvedora de negócios (“developer”) e investidora. Estes serviços visam atender às necessidades do mercado pelo desenvolvimento das competências quer internamente, quer por associações ou através de parcerias com empresas, que possam agregar tecnologias complementares.
O trabalho integrado entre organizações, segundo o relato, é uma das respostas a essas novas demandas e requer a criação de redes de fornecedores e parceiros cada vez mais complexas e dinâmicas. “Tais produtos representam serviços diferenciados de elevado valor agregado, envolvendo maiores riscos e, consequentemente, maiores rentabilidades”, explica o presidente da Guimar.
Por conta disso, em 2006, visando o atendimento das demandas do mercado relacionadas ao fornecimento de soluções integradas de engenharia em regime EPC (engenharia, suprimento e construção) e EPCM (engenharia, suprimento e gerenciamento da construção), a companhia, associada a empresas brasileiras com vasta experiência no segmento da engenharia, constituiu a Tridimensional Engenharia S. A.
Hoje, dentre os empreendimentos mais significativos gerenciados pela Guimar, e que ao longo do tempo têm agregado valor ao histórico da empresa, se alinham, além daqueles aqui já mencionadas, o Gasoduto Brasil-Bolívia, da Petrobras; fábrica de cerveja da Argentina, da Brahma; fábrica de cerveja e refrigerantes Nova Rio de Campo Grande - RJ, da Brahma; Parque Gráfico de Duque de Caxias – RJ, do Jornal O Globo; fábrica de latas da Argentina, da Reynolds/Latasa; expansão da capacidade de produção, Porto Trombetas – PA, da Mineração Rio do Norte; Complexo Petroquímico de Duque de Caxias – RJ, da Rio Polímeros; Implantação e expansão de diversas unidades, da VALE; Implantação e expansão de diversos empreendimentos, da Suzano Papel e Celulose; e outras. Dentre as obras mais recentes se encontram o Complexo Siderúrgico da VSB e o projeto de expansão da Gerdau Aço Minas, ambas em Minas Gerais, a Usina de Pelotização VIII, que integra o projeto de expansão do Complexo Industrial de Tubarão (ES), e o Porto Sudeste, do Grupo EBX, no Rio de Janeiro.
A sua trajetória de crescimento contínuo e planejado levou a empresa a uma posição de destaque no ranking da Revista O Empreiteiro, na categoria Projeto e Consultoria. Em 2011, a Guimar também foi premiada como “Melhor Fornecedor de Gerenciamento”, prêmio concedido pela Vale, resultado da avaliação dos processos e práticas de gestão das suas empresas fornecedoras de serviços e equipamentos.
Perspectivas futuras
Heródoto Ferreira Monte considera que os planos da Guimar para os próximos anos são ambiciosos e devem fazer jus ao que ela já construiu até aqui. “Somos uma empresa jovem, que acaba de completar 21 anos de atividades, mas que consolidou, nesse período, um acervo muito amplo de experiências humanas, sociais e técnicas”, diz ele.
Em seus planos de ampliação, a empresa se considera parte de um mercado globalizado que lamentavelmente continua a emitir sinais de incerteza relacionados à estabilidade e ao crescimento econômico de outras regiões do mundo. “Mas, precisamos acreditar. As perspectivas de nossa economia são positivas em função, preponderantemente, da demanda e dos investimentos internos. Somos um país em processo de crescimento e aparentemente não temos outra opção, senão crescer”, afirma o presidente da Guimar.
Ele salienta que o Brasil dispõe de um mercado consumidor importante que deverá prosseguir gerando novas demandas, com reflexos no comércio, na agroindústria e na cadeia produtiva da construção. Vêm aí a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de 2016 e tudo deve traduzir-se em obras de infraestrutura, em especial nos segmentos de transportes (aeroportos, portos, rodovias, ferrovias, metrôs, trens etc.), que precisam ficar como legado para as novas gerações. “E não podemos esquecer o possível boom previsto nos segmentos de óleo e gás, incluindo a exploração de petróleo sob a camada do pré-sal; a necessidade que temos de continuar construindo unidades geradoras de energia, mesmo diversificando a matriz energética brasileira; novos projetos e ampliações na área de mineração e, possivelmente, um novo ciclo de expansão industrial”.
A empresa, dentro da expectativa de seu crescimento, se empenha na manutenção de valores que considera essenciais: qualidade, compromisso com a excelência, confiabilidade e comprometimento com resultados; foco nas expectativas do cliente ética e transparência. Considera seus recursos humanos como seu maior ativo. O comportamento e as ações de seus colaboradores, aderentes aos valores da Guimar, consolidam a filosofia empresarial e viabilizam a estratégia de negócios da empresa. São as pessoas que pensam, aprendem, criam, interagem e, sob a orientação da liderança, geram os resultados desejados.
A empresa informa que, para a melhoria contínua da qualidade de seus serviços, investe de forma intensiva na sua metodologia de gerenciamento – Sistema Guimar de Gerenciamento (SGG) e na capacitação de seus colaboradores. O seu sistema de qualidade está certificado pela Det Norske Veritas (DNV) em conformidade com os requisitos da Norma NBR ISO 9001:2008 para o escopo de produtos e serviços de gerenciamento de empreendimentos, abrangendo a prestação de serviços de engenharia consultiva e soluções integradas em contratos EPC, engenharia de projetos e construção de edificações; pelo Sistema de Gestão Ambiental (ISO 14.001: 2004); Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (OHSAS 18001:2007 e em conformidade com os requisitos do Programa Setorial de Qualidade (Qualihab) – Gerenciadora Qualificação Nível 6 para o escopo de Gerenciamento de Empreendimentos.
O engenheiro Heródoto Ferreira Monte aprecia falar de engenharia. Não gosta de encará-la, porém, de modo dissociado de outras atividades econômicas. Para ele, todas as atividades se somam e compõem uma força importante para a mudança da infraestrutura e aceleração da economia do País. Costuma ler de dois ou três jornais por dia e fica permanentemente ligado às questões do cenário brasileiro. Além disso, não perde a oportunidade de ler bons livros, sobretudo de ficção e de biografia. Nesses dias, por exemplo, leu A saga das mãos, que conta a história de superação do maestro e pianista João Carlos Martins. “É um livro que conta a história de um homem de grande capacidade de superação e que pode ser considerado um exemplo, tanto para nós, pessoas físicas, quanto para nós, pessoas jurídicas. O esforço, a competência, a vontade de fazer, que nos motiva a viver, são valores permanentes, hoje e sempre”.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Fonte: Estadão