A falência dos valores na vida pública
Joseph Young
 
No berço da democracia, o então primeiro-ministro George Papandreou conseguiu que a Alemanha e a França montassem uma frente única para arrancar dos bancos um perdão de 50% da dívida da Grécia e o refinanciamento do restante.  Passadas 24 horas dessa façanha histórica, ele deu o dito por não dito e propôs que a negociação, já fechada, passasse por um referendo no seu país, pegando de surpresa os seus pares da comunidade europeia. A ameaça de não cumprir a palavra empenhada por Papandreou, que em seguida renunciou, é apenas mais um exemplo da falência dos valores na vida pública, onde os políticos colocam em primeiro plano a sua própria sobrevivência, ignorando o clamor dos seus eleitores que, no fim das contas, arcarão com as consequências.
No Japão, a revista The Economist conseguiu driblar as barreiras de isolamento e ingressar na terra de ninguém em que se transformaram os vilarejos do entorno da usina nuclear de Daichi, em Fukushima. Lá, e viu cenas dignas de um filme de horror nove meses após o terremoto seguido de tsunami. O número total de residentes desalojados de suas casas e negócios soma cerca de 89 mil pessoas, que habitavam o que hoje é um conjunto de casas, lojas e escolas desertas e abandonadas, ao lado de montanhas de ruínas e plantações de arroz invadidas por capim. Eles ainda não receberam compensação por suas perdas materiais, ao abandonar o lugar onde as famílias viveram por séculos. Embora um novo primeiro-ministro já tenha assumido, os dois partidos políticos dominantes não parecem ter deixado de lado suas divergências para acelerar as medidas de reconstrução na área. Uma sociedade admirada por seu espírito de luta e desenvolvimento econômico e tecnológico fracassou até agora em iniciar a reconstrução em Fukushima, porque confiou essa tarefa ao parlamento do país e ao governo, que sequer interveio na Tepco, a empresa elétrica responsável pela usina nuclear.
Em Brasília, o governo está virtualmente paralisado pelas sucessivas denúncias de corrupção. Por conta disso já foram defenestrados cinco ministros (caíram seis, um deles, o da Defesa, se demitiu por incompatibilidades) nos meses recentes. O ministério mais crítico foi o de Transportes, onde o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) interrompeu obras em andamento e a contratação de obras novas; a Valec teve 12 contratos de aquisição de dormentes questionados pelo Tribunal de Contas da União, enquanto a Transnordestina prossegue, mas em marcha lenta.
A queda do “indestrutível” ministro dos Esportes, Orlando Silva, não tevê reflexo nos andamentos das obras dos novos estádios nas cidades-sede, empreendimentos esses articulados pelos governos estaduais, prefeituras e empresas privadas, com financiamento do BNDES, embora seus custos finais estejam entre os mais altos do mundo. A África do Sul não serve de referência pelas notórias interferências políticas na construção das arenas da Copa do Mundo. As obras de mobilidade urbana nas capitais, entretanto, adotando uma solução limitada - os BRTs - seguem com graus variados de atraso. As linhas de recursos a juros baixos do BNDES parecem não ter sensibilizado a indústria hoteleira. Tanto assim, que cidades notoriamente carentes de hotéis, como Belo Horizonte, não registraram novos empreendimentos hoteleiros de porte até agora. (Quem passa pelas proximidades das portas lacradas do antigo hotel Del Rey, que deve ser parte da massa falida do grupo empresarial que o mantinha, se pergunta: Será que esse ainda majestoso edifício vai permanecer fechado na Copa de 2014?)
No Rio de Janeiro, cidade-sede da Olimpíada 2016, a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela da Rocinha representa o 19º morro retomado pelas autoridades. É o resultado de um trabalho consistente do secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, vindo da Policia Federal, onde atuou durante 20 anos, e que só aceitou o cargo porque recebeu garantias de que não haveria interferência política na montagem da sua equipe e na condução do seu trabalho. Foram dois anos de planejamento até a instalação da primeira UPP nos morros cariocas. 
É o caso de se perguntar: Por que as agências “olímpicas” nas três esferas de governo não replicam esse sucesso e contratam um profissional experiente em gestão de obras privadas para montar uma equipe para gerenciar o vastíssimo conjunto de projetos dos Jogos Olímpicos de 2016, sem ingerência política? Por exemplo, um consórcio de empresas gerenciadoras de ilibada competência, como fez a ODA — Olympic Delivery Authority —, a agência governamental responsável pela implementação da infraestrutura da Olimpíada de Londres de 2012.
Com a falência dos valores e do político profissional, seja ele do Legislativo ou do Executivo, recorrer às empresas de engenharia privadas é a única solução factível, enquanto ainda há algum tempo pela frente. Londres investiu dois anos de planejamento, enquanto executava algumas obras básicas. Vale lembrar, ainda, que o legado possível da Olimpíada de 2016 e o sucesso desse evento global são peças cruciais do hipotético projeto Brasil 2050, destinado a reposicionar o País no cenário global de então, que nem o governo nem a oposição tiveram competência ainda de arquitetar. Para sermos justos, a sociedade civil também está adormecida e silenciosa.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Fonte: Padrão
*
Publicidade
  • Gerdau
  • Rudloff
  • Banner 50 anos
  • Equipo Mining 2012
  • Linha do Tempo
  • Arezza
  • Blog do Nildo
  • Concrete Show
  • 500 Grandes
  • CH2M Hill
  • Equipo Mining 2012

A Revista

- Perfil

- Publicidade

- Assinaturas

Eventos

Contato

Rua João Gomes Junior, 1085
Cep: 05592-001 - Jd. Bonfliglioli - São Paulo/SP
Fone: (11) 3788-5500

 

500 Grandes

Edições

 
 
A republicação e divulgação de conteúdos públicos são permitidas, desde que citados fonte, título e autor. No caso dos conteúdos restritos, não é permitida a utilização sem autorização do responsável. É totalmente livre a citação da URL do Portal (http//www.revistaoempreiteiro.com.br) em sítios e páginas de terceiros.
© 2012 - O Empreiteiro - Todos os direitos reservados.
L2 Comunicação e Tecnologia