Joseph Young – Londres (Inglaterra)
“Não há obra que a engenharia atual não faça – depende só do prazo e da conta”. Dizer isso parece arrogância de quem exerce a profissão. Mas, a Olympic Delivery Authority (ODA), entidade pública britânica encarregada de “entregar” pronto o Parque Olímpico de Londres, e o consórcio gerenciador contratado (CLM - CH2M Hill, Laing O’Rourke and Mace) para coordenar a execução do empreendimento de dimensões incomuns, provaram com um ano de antecedência em relação ao cronograma oficial que a frase está correta.
A ODA e o consórcio CLM cumpriram a cartilha, em planejamento e gestão, ao pé da letra. Durante dois anos, dedicaram-se ao estudo minucioso de cada projeto, cada um deles detalhados em até 200 atividades, as quais foram planejadas a execução, prevendo-se as eventuais contingências inevitáveis e seus riscos, medidas corretivas e mudanças. Quando surgia uma ocorrência não programada, as possíveis soluções já se encontravam alinhadas.
A ODA conta com uma equipe de 200 profissionais e o CLM, cerca de 500, recrutadas em diversos países, com experiências variadas que foram valiosas na condução desse processo de gestão. Engenheiros da indústria de petróleo, por exemplo, agregaram importante vivência na gestão de processos aos seus colegas de engenharia civil e construção no empreendimento, que incorpora uma complexidade e ambição poucas vezes vistas.
A Inglaterra ousou na sua proposta de sediar a Olimpíada 2012, em fazer o resgate da região de East London, que era historicamente a mais pobre do país e da capital, onde moravam imigrantes recém-chegados de baixa renda que falavam mais de 100 idiomas ou dialetos. O sítio escolhido para o Parque Olímpico continha entulho e lixo industrial de muitas décadas, inclusive tóxicos, obrigando a remoção total de uma camada de solo de até 3 m de profundidade, que foi depurada para se eliminar os contaminantes, reaproveitando-se o material são no próprio local.
Esse trabalho de terraplenagem e reciclagem do solo teve início imediato, por causa do volume de material previsto, enquanto os estudos de planejamento se aprofundavam ao longo de dois anos.
Com a ideia ambiciosa de formar um novo polo urbano e econômico em East London, era preciso criar condições para reverter o atraso e o abandono da região, embora se localizasse entre bairros vibrantes de Londres e o novo centro financeiro de Canary Wharf na região de Docklands. O clima e a paisagem dos parques e jardins londrinos foram replicados no Parque Olímpico, com instalações e equipamentos que possibilitam atrair moradores de alta renda aos empreendimentos imobiliários pós-Jogos, cuja presença visa alterar o mix demográfico, elevando o padrão de vida local.
A menos de um ano do início da Olimpíada, £ 1 bilhão do orçamento total continua reservado para os trabalhos pós-jogos — incluindo o desmonte de quase metade da estrutura do estádio olímpico; a retirada das duas arquibancadas laterais do centro aquático — que quebram hoje as linhas fluidas do projeto da arquiteta Zaha Hadid —; a remoção completa do ginásio do basquete e das quadras de hóquei; a redução a uma escala “humana” da maioria das 80 pontes construídas sobre os rios que cruzam o parque (20 delas de acesso externo); a retirada de boa parte dos pisos pavimentados para dar lugar a espaços verdes; a instalação de cozinhas nos apartamentos da vila olímpica, que já tem 90% deles vendidos a moradores permanentes etc.
Dentro desse conceito de privilegiar o permanente, colocando em segundo plano os equipamentos provisórios montados para a Olimpíada que dura apenas quatro semanas, todas as estruturas foram projetadas para construção pelo processo tradicional e de custo mais competitivo. Os perfis metálicos são todos de medida padrão, facilitando sua revenda após a desmontagem. Dois ou mais perfis são soldados para obter uma peça mais robusta, ao invés de se encomendar um perfil sob medida. Pré-moldados de concreto foram empregados sempre que possível, inclusive no estádio olímpico, facilitando mais uma vez sua desmontagem posterior.
O amplo centro de telecomunicação, que por exigência das emissoras de televisão não possui janelas para entrada de luz natural, já foi arrendado por 10 anos pelo estúdio de produção que realizou os filmes de Henry Potter. Outro edifício permanente será destinado às festas da numerosa comunidade paquistanesa da região, que não tinha local apropriado para celebrações que costumam reunir pequenas multidões.
Os espaços públicos do Parque Olímpico são proporcionais ao público que espera receber — média de 280 mil pessoas ao dia, sendo 80 mil espectadores nas arenas e 200 mil visitantes acompanhando os jogos pelos telões, jardins e espaços de lazer. Quem visitar o local neste final de ano encontrará ainda muitos canteiros, máquinas e equipes de homens trabalhando. Mas os principais equipamentos, arenas e espaços, inclusive a vila olímpica com mais de 2 mil apartamentos, estão concluídos. As obras atuais são de acabamento final. As árvores vistas no parque já medem mais de 5 m de altura, transferidas de viveiros onde foram plantados há algum tempo. Os trabalhos de paisagismo ainda terão uma etapa final 60 dias antes de se abrir os Jogos.
No projeto e gerenciamento desse conjunto de atividades e obras, a modelagem BIM foi extensivamente empregada. O software CAD ainda dominante nas obras foi em 2D, porque o uso do recurso em 3D, embora possível, consumiria um tempo de processamento considerado excessivo pela equipe técnica. Um registro as-built foi realizado em 100% das instalações, para uso da nova empresa pública encarregada da sua operação pós-jogos.
A ODA se propôs a deixar um legado melhor do que aquele deixado pelos Jogos de Beijing, Barcelona e Melbourne. Mas só daqui a alguns anos será possível avaliar-se se essa ambição se materializou e a população ganhou efetivamente um novo East London.