Soluções em 3D se consolida em iniciativas de infraestrutura
Augusto Diniz — Amsterdam (Holanda)
 
O evento anual organizado por uma das maiores fornecedoras de soluções para o mercado de construção, a Bentley Systems, realizado no início de novembro, em Amsterdam, Holanda, foi marcado pela apresentação de inúmeros projetos de infraestrutura que utilizam soluções avançadas em 3D. A prática vem sendo difundida em graus variados nos cinco continentes (inclusive no Brasil).
A seguir, relacionamos alguns dos principais projetos internacionais de infraestrutura apresentados no evento da Bentley cujo uso da Tecnologia da Informação teve papel decisivo para o seu desenvolvimento:
Japão
A Kokusai Kogyo utilizou um sistema de mapeamento móvel por veículo na região leste do Japão atingida pelo terremoto em março deste ano. O objetivo foi gerar dados precisos para tomar decisões mais adequadas com relação aos trabalhos de reconstrução da área afetada. Nesse caso, soluções de localização e escaneamento terrestre de imagem em 3D foram amplamente utilizadas.
O terremoto – cujo epicentro foi próximo à costa japonesa - provocou tsunami que inundou 561 km² do país, com mais de 15.400 mortos e danos sem precedentes. Levantar o tamanho da devastação foi uma busca incessante, inclusive para comparar com o cenário antes existente ao ocorrido. Em sete cidades do Japão atingidas pelos terremotos foram utilizadas a tecnologia de levantamento do espaço físico.
O sistema de mapeamento identificou todo tipo de alteração com o sismo, inclusive deposição de sedimentos, rachaduras e lama, além de escombros de construções. Outros métodos também foram utilizados para medir os danos, incluindo imagens de satélite e pesquisa de campo. A integração dos dados de cada metodologia proporcionou as informações finais.
Após análise, as informações tornaram-se fundamentais para se entender o grau da destruição e suportar as decisões de reconstrução. Soluções de modelagem de projetos para reconstrução, notadamente de ruas e estradas, também foram aplicadas como complemento às informações de rastreamento recolhidas.
Qatar
A Qatar Petroleum opera estruturas on shore de produção, armazenamento e exportação de petróleo ao longo de sua costa. Quatro delas — Halul Island (50 anos), PS-2 (47 anos), PS-3 (40 anos), PS-4 (20 anos) — possuíam projetos desatualizados, inconsistentes, variadas versões com sistemas diferentes em cada um, além de incongruência de dados e documentos obsoletos.
O impacto dessas imprecisões geravam ameaças ao meio ambiente e a segurança, queda de eficiência, perda de produtividade, retrabalho, aumento do custo e perda de dados confidenciais.
A ação vislumbrada para diminuir esse impacto e, ao mesmo tempo, ter mais acuradas informações de engenharia foi aplicar soluções de escaneamento terrestre de imagens e a criação de modelos em 2D e 3D de alta precisão para, assim, gerar registros das construções em alto-mar.
A tarefa foi árdua já que a localização geográfica para execução do projeto era de difícil alcance (alto mar, aproximadamente 90 km da costa). Com o andamento dos trabalhos, 18 mil imagens foram capturadas, 4.280 digitalizações (via escaneamento terrestre) de detalhes da obra foram realizadas e 1.456 layouts de tubulações civil e elétrica foram extraídos.
Os benefícios imediatos com a iniciativa foram a atualização dos dados das estruturas e criação de histórico em arquivo de forma organizada, estruturada e capaz de ser facilmente consultada.
O investimento total nesse projeto foi de US$ 36,4 milhões. A duração da iniciativa foi de 43 meses.
Índia
Assim como o Brasil, a Índia foca na construção de infraestrutura para suportar o seu desenvolvimento. A produção de energia é um dos pilares para sustentar o crescimento acelerado da economia. Paralelamente, a preocupação com os impactos ao meio ambiente nessas obras tem sido prioridade.
Com essas premissas, o governo decidiu construir uma nova planta de energia térmica. O projeto fica próximo a uma planta já existente, defasada e pouco eficiente.
Área limitada, restritas normas ambientais, cronograma apertado, necessidade de redução de emissão de carbono e imposição para adotar práticas de Responsabilidade Social exigiram a adoção criativa de soluções tecnológicas.
A L&T-S&L, empresa com foco na indústria de energia, foi a responsável em prover soluções de engenharia para o projeto da usina térmica de 660MW em Nagpur, Mahashtra, no valor de US$ 1,5 bilhão. Assim, a empresa desenvolveu uma planta em ambiente 3D. A proposta foi criar um sistema inteligente no qual pudesse ser integrados gráficos e a gestão da iniciativa, com visualização virtual e efetiva comunicação.
A modelagem em tempo real facilitou o desenvolvimento da planta, assegurando consistente conceitualização do projeto, inclusive na adoção de soluções mais apropriadas. A prática também possibilitou que os prazos e orçamentos fossem respeitados. A revisão de modelos entre os projetistas e a equipe de execução assegurou a viabilidade da construção.
Para melhor entendimento do projeto, vídeos detalhando a complexidade da construção foram elaborados. Isso significa que não somente as imagens em 3D, em arquivo pdf, mas vídeos em HD foram incorporados como parte dos programas de análise da obra.
O uso da ferramenta permitiu a redução em 10% da área da planta e em 10% o tempo de engenharia, a diminuição de retrabalho e a aprovação rápida entre as partes envolvidas.
Estados Unidos
A execução de um cruzamento entre duas vias no interior do estado de Indiana, Estados Unidos, caminhava para o seguinte: a estrada (Rota 69) com duas faixas de rolamento em cada sentido separadas por canteiro, cruzaria uma estrada simples, com duas faixas de tráfego, por meio de duas pontes a serem construídas.
A solução encontrada pela Beam, Longest and Neff (BLN) para reduzir custo e tempo de obra foi fazer o contrário da proposta inicial: uma única ponte de cruzamento pertencente à estrada simples seria construída no cruzamento, sendo que as duas faixas de rolamento em cada sentido da Rota 69 passariam por debaixo da ponte.
Em uma primeira análise, a solução parecia simples e lógica, mas exigiu da empresa projetista um árduo trabalho de convencimento junto aos contratantes para alterar aquilo que já estava inicialmente definido, inclusive com recursos alocados.
Assim, foi reformulado o plano e investigado novo conceito a partir de soluções tecnológicas. O resultado final representou corte de custo (US$ 5,5 milhões), menos tempo de execução de obra (2,5 meses) e igual eficiência no resultado. Nesse caso, o uso da tecnologia foi instrumento legítimo de comprovação de necessidade de melhoria de projeto.
 
Projeto da Vale premiado
O encontro organizado pela Bentley também foi ocasião para premiar com Be Inspired Awards as empresas que utilizam soluções da companhia de Tecnologia da Informação. Foram 57 projetos finalistas (de um total de 342 inscritos) – todos apresentados durante o evento.
Três empresas brasileiras chegaram à final: Matec Engenharia (categoria Inovação em Construção), SEI Engenharia (categoria Inovação em Mineração e Metalurgia) e Engevix Engenharia (categoria Inovação em Rodovia). Porém, somente a SEI Engenharia conquistou o prêmio máximo.
Conheça a seguir os projetos brasileiros que concorreram ao Be Inspired Awards.
Cristalino
O case premiado da SEI Engenharia foi desenvolvido no projeto Cristalino, planta de mineração para produzir concentrado de cobre em Canaã dos Carajás, no Pará, da Vale, com investimentos de US$ 2,6 bilhões.
Os objetivos básicos da SEI Engenharia foi usar modelos 3D para avançar no estudo de alguns conceitos que somente poderiam ser discutidos em um projeto detalhado; e previsão do uso de ferramenta de simulação de cronograma, objetivando a economia de recursos desde o começo do projeto.
“Foi o nosso primeiro projeto básico todo em 3D. Para a viabilidade do projeto, era preciso utilizar o modelo. O terreno é muito acidentado. Teríamos que estudar vários layouts”, justifica o uso da ferramenta Rafael de Santiago Silva, gerente de Automação de Projetos da SEI Engenharia.
Assim, as ferramentas para modelagem da infraestrutura, estrutura de concreto, estrutura de aço, subestação, instalações industriais e suporte foram largamente aplicadas para fazer várias simulações de layout e acesso externo e interno, com o objetivo de reduzir os investimentos no empreendimento.
A solução InRoads, por exemplo, foi muito utilizada para avaliar a movimentação de terra necessária na planta de beneficiamento. Por outro lado, a ferramenta Navigator e i-Model foram incorporadas para ajudar a colaboração de informações de engenharia e comentários eletrônicos entre a equipe de projeto e gerentes de projeto da SEI e da Vale. Dessa forma, as sessões de revisão de projeto, distribuído por meio de arquivos extremamente portáteis e de cópia única, foram diminuídas, tornando a aprovação do projeto mais rápida.
“O projeto básico levaria 18 meses, mas ficou pronto em 12 meses. Economizamos 5.100 horas de trabalho. Também reduzimos 80% da emissão dos desenhos”, revela Santiago Silva.
De acordo com o gerente de Automação da SEI, o uso de modelos 3D possibilitou ainda planejar com mais precisão prédios e equipamentos na planta ainda na fase de projeto básico, prática complexa quando se usa ferramenta 2D. “O modelo 3D diminui o número de alterações no projeto específico. Acaba não se mexendo mais em conceito”, explica.
 
Modelo BIM
Já o projeto da Matec Engenharia referiu-se à construção do Laboratório Fleury, em São Paulo (SP), de 8.500 m² (data de conclusão: dezembro/2011).
Durante o desenvolvimento dos trabalhos, o prazo curto, a natureza do prédio (salas especiais típicas de centro médico), as definições do projeto e todos os estudos e cálculos necessários para eficiência energética para respeitar os critérios de certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) foram os desafios encontrados.
Nesse caso, o modelo BIM (Building Information Modeling) foi extensivamente usado em diferentes processos de simulações e sequências de atividades, a fim de conseguir o melhor tempo de construção geral.
“Utilizamos o BIM para a compatibilização dos projetos de sistemas com estrutura e fechamentos, pois se trata de um edifício de análises clínicas com muitos sistemas semelhantes ao de um hospital”, explica Adolfo Blasco Ribeiro, gerente de TI da Matec.
Outro uso do modelo BIM foi para a visualização do cronograma de construção, para tomada de decisão de logística, como a definição da montagem da fachada por andaimes ou balancim.
A simulação ajudou até na definição da montagem do equipamento de ressonância magnética em sala específica, com todos os acabamentos e isolamentos, antes da construção, permitindo três semanas de economia do tempo geral (ou 9,5%).
“É difícil mensurar qual foi o tempo geral que se economizou na obra, se levarmos em conta os erros evitados no planejamento, mas com certeza foi muito significativo. O prazo de execução desta obra é de seis meses. Com planejamento e simulações diminuímos o cronograma original em cerca de 5 semanas para atender o prazo”, acrescenta o gerente de TI da Matec.
Rodovia com menos curvas
Com relação à Engevix Engenharia, o projeto escolhido foi de construção de uma rodovia no interior do estado de Santa Catarina, que liga os municípios de Angelina e Major Gercino (SC-108).
O objetivo do projeto da Engevix era criar um ambiente de alta produtividade na construção da rodovia de cerca de 29 km, atendendo ao cronograma apertado e aderindo severamente aos padrões do CAD.
Os desafios técnicos envolvidos na obra foram enormes, uma vez que o projeto se encontrava em terrenos altos e às margens do rio Garcia. Outras características eram curvas de pequeno raio reverso e geometria horizontal muito sinuosa. Em um design antigo, foram estimadas 246 curvas e esperava-se que 57 delas tivessem o raio mínimo (30 metros). Transições em espiral foram descartadas em alguns segmentos devido a questões de topografia.
Assim, a equipe de engenharia de estradas da Engevix utilizou InRoads XM na execução de seus projetos. Enquanto se planejava migrar para a versão V8i, a companhia vislumbrou ainda a oportunidade de utilizar melhor os recursos dos aplicativos, aproveitando a vantagem de uma ferramenta mais aprimorada, a PowerCivil for Brazil, otimizando os trabalhos.
O PowerCivil também proporcionou uma tecnologia chave para a interpretação e o estudo das melhores soluções para o design de rodovias para o Brasil. A ferramenta Rodway Designer permitiu que a projetista, rapidamente, testasse opções de engenharia, decidindo pela melhor em cada situação topográfica.
Como resultado imediato, o projeto atual definiu 156 curvas para a rodovia (o projeto anterior era de 256).
“O número de curvas inicial (246) era do projeto básico. Uma série de fatores propiciou a diminuição no número delas. O grau maior de precisão dos estudos topográficos do projeto foi um deles. Também, se programou serviços de terraplenagem, contenções e obras de arte especiais”, relata Henrique de Britto Farias, gerente de TI da Engevix. Ele explica que a redução de curvas não representou necessariamente diminuição de custo da obra, mas significou redução de impactos ambientais e maior conforto ao usuário. “Como resultado, a rodovia atrairá maior tráfego e consequentemente sua viabilidade é ampliada”, explica.
“A função da TI como parceiro estratégico da engenharia é fornecer e indicar as tecnologias para a melhor execução dos trabalhos. No caso em questão foi fornecido o software, treinamento, personalização da ferramenta e as orientações das melhores práticas. Os ganhos propriamente ditos, porém, é fruto da correta aplicação por parte da engenharia do que foi ensinado e discutido durante o processo de implantação”, finaliza Britto Farias.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Fonte: Padrão
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