A construção da ponte Rio Negro registra alguns episódios importantes para a história da engenharia no campo das grandes estruturas
As fundações, compostas de estacas escavadas de grande diâmetro (2,00 m a 2,50 m), foram executadas mediante a perfuração de um severo subleito do rio, composto de camadas erráticas de rocha de até 2,50 m de espessura, em diversas profundidades. As condições de implantação, ao longo de 2009, foram agravadas pela ocorrência da maior cheia de que se tem notícia naquele rio. Associaram-se a isso as adversidades climáticas da região, representadas por ventos de altas velocidades e tempestades com grande incidência de descargas atmosféricas.
O engenheiro Henrique Barroso Domingues, gerente de Obras da Camargo Corrêa, e o engenheiro Francisco Catão Ribeiro, da Enescil, empresa que elaborou o projeto executivo, informaram à revista O Empreiteiro, na época, que a ponte se revelava como obra de maior dificuldade de implantação, dentre outras do gênero, em razão daquelas adversidades.
Lembrou o engenheiro Henrique Domingues: “Estamos entrando nos domínios do rio Negro, e é preciso fazê-lo com sabedoria, com criatividade, desenvolvendo soluções de engenharia inovadoras, porém, não para domá-lo, mas pedindo permissão para cruzar as suas águas.” A ponte, ora inaugurada, permite a continuidade normal do fluxo de embarcações. Seus canais principais, de 200 m de largura, atendem a um gabarito mínimo de navegação de 55 m.
O mastro central, com 162 m de altura desde o bloco de fundação, ancora os estais que sustentam a superestrutura dos dois vãos do trecho estaiado. Os demais vãos têm 45 m de comprimento e são compostos de apenas três vigas longarinas protendidas, cada qual com 2,85 m de altura e 135 t de peso.
A superestrutura, ou tabuleiro, foi executado mediante o lançamento de lajes pré-moldadas na forma de π, configuração necessária para que se pudesse vencer o grande vão entre as vigas longarinas, da ordem de 7 m, o que não seria possível com placas planas.
Nos trechos de acesso ela possui 20,60 m de largura, incluindo as barreiras de proteção e os passeios laterais. No trecho estaiado, a largura é um pouco maior, para permitir a fixação dos estais, passando para 22 m. Conta com quatro faixas de rolamento, duas em cada sentido.
Diferentemente do que sugeria o projeto básico, o subleito do rio é composto não só por solo, mas apresenta espessas camadas de rocha que tiveram de ser atravessadas pelos equipamentos de perfuração.
“Desde as primeiras sondagens”, lembrava o engenheiro, “foram detectadas as dificuldades para se trabalhar com uma lâmina d’água que poderia chegar a 57 m, com equipamentos embarcados em balsas, para a execução das estacas escavadas de grande diâmetro.” Em razão das complexidades locais, a implantação das estacas acabou se tornando uma obra própria. Tanto assim, que em cada apoio, havia uma especificidade, em razão da solução diferenciada de engenharia que deveria ser adotada.
Para a execução das estacas foi preciso fabricar camisas metálicas, que venceram a lâmina d’água e foram cravadas no leito do rio até determinada profundidade. A partir daí entraram em ação as perfuratrizes, que realizaram a escavação da estaca, removendo o material de dentro da parte cravada da camisa metálica e perfurando o subleito abaixo de sua extremidade inferior até a cota de ponte definida em projeto, com o uso de lama bentonítica, utilizada para a estabilização das paredes do fuste.
Seguiu-se, a partir daí, a colocação da armadura, a limpeza final da ponta da estaca e a concretagem, utilizando-se um tubo tremonha que fez o lançamento do concreto. Na medida em que o concreto ia preenchendo a estaca, expulsava a lama bentonítica, que era recolhida e reciclada para uso em outras estacas. Os caminhões-betoneira foram transportados em balsas até o local da concretagem.
O tempo para o lançamento do concreto tinha de ser rigorosamente controlado, pois, embora dosado com aditivos especiais, o seu endurecimento precoce poderia provocar sérios transtornos na execução das estacas, devendo-se garantir sua trabalhabilidade do início ao fim da concretagem.
A metodologia inicial para a construção dos blocos de fundação sobre as estacas previa a execução de cimbramento metálicos soldado às camisas metálicas, sobre o qual foram colocadas as fôrmas, feita a armação e realizada a concretagem. Com o nível de cheia daquele ano, a água chegou bastante acima do fundo dos blocos, inviabilizando a continuidade de implantação através com uso dessa metodologia. Por causa disso, foi criado o bloco-casca, uma caixa de concreto armado pré-moldado, com furos em sua laje de fundo que se encaixavam sobre as estacas. Após a vedação dos espaços compreendidos entre as estacas e os furos, a parte interior do bloco casca era então esgotada, permitindo a execução do bloco de fundação, mesmo com o nível d’água do rio acima de seu fundo. Dessa forma, bloco-casca cumpriu o papel simultâneo de cimbramento e de fôrma, e evitou solução de continuidade para o empreendimento.
A superestrutura do trecho estaiado é composta de aduelas de concreto pré-moldadas com peso da ordem de 200 t, içadas de balsas e progressivamente anexadas ao tabuleiro, compondo os dois vãos centrais, cada qual com 200 m de extensão.
Na construção do mastro central foram utilizadas fôrmas trepantes preparadas para camada de 4,0 m de altura. Os pilares do trecho corrente foram executados com fôrmas deslizantes.
Por ocasião da inauguração da obra, Arnaldo Cumplido, diretor superintendente da Camargo Corrêa Infraestrutura, explicou que “a combinação de rocha, areia e argila no subleito do rio exigiu que dezenas de engenheiros, projetistas e profissionais de diversas áreas se dedicassem a entender as características geológicas, geotécnicas e hidrológicas do rio, para que os serviços pudessem avançar com qualidade e segurança”.
Foi necessária a implantação de duas centrais de produção de concreto, cada uma com capacidade de produção de 60 m³/h em terra, e uma unidade de usinagem de concreto embarcada, com capacidade produtiva de 9 m³/h.
Ficha técnica
Construção: Originalmente a cargo do Consórcio Rio Negro, formado pelas empresas Camargo Corrêa e Construbase; depois, a Camargo Corrêa concluiu a obra sozinha.
Projeto básico: Geométrica Engenharia
Projeto executivo: Enescil Engenharia
Gerenciamento e fiscalização: Vetec Engenharia
Subempreiteiras:
- Consarg Construtora e Comércio (beneficiamento e aplicação de aço de construção);
- Prepron Industrial (protensão);
- Fundesp Fundações Especiais (estacas escavadas de grande diâmetro);
- Costa Furtuna Fundações e Construções (estacas escavadas de grande diâmetro);
- Labormix Comércio, Usinagem e Prestação de Serviços (fabricação de concreto);
- Memps Montagem Eletromecânica e Manutenção (fabricação de tubos – camisas metálicas – para as estacas escavadas);
- Mills Estruturas e Serviços de Engenharia (locação de material de cimbramento e transporte das vigas pré-moldadas);
- Fordenge - Fôrmas Deslizantes (fornecimento, montagem e operação das fôrmas deslizantes dos pilares do trecho corrente);
- Geofort Fundações (sondagem em água de grande profundidade);
- Geopress Sondagens e Serviços (sondagem em água de grande profundidade);
- Tecnosonda (sondagem em água de grande profundidade);
- In Shore Mergulho Profissional (apoio de mergulho);
- Tecomat Tecnologia da Construção e Materiais (controle de qualidade);
- Construtora Etam (terraplenagem);
- Instalações provisórias de canteiro: J. Nasser Engenharia (construção civil dos canteiros) e Interfasse (instalação do canteiro de obras).
Características do Projeto:
- Comprimento total da ponte – 3.595 m;
- Número de vãos – 73;
- Extensão do trecho estaiado – 400 m;
- Extensão do vão central – 2 x 200 m;
- Largura do trecho corrente – 20,70 m;
- Largura da seção estaiada – 22,60 m;
- Altura do vão central – 55 m;
- Altura do mastro central – 162 m;
- Número total de estais – 56 m;
- Total de vigas pré-moldadas – 213;
- Número total de estacas escavada – 246;
- Volume de concreto por estaca: variável de 120 m³ a 415 m³.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Fonte: Padrão