Parque Olímpico é exemplo de planejamento e legado
Será difícil realizar um megaevento esportivo a partir de 2012 sem olhar para o que foi feito na capital inglesa
Augusto Diniz — Londres (Inglaterra)
Quando a Olympic Delivery Authority (ODA), responsável pelo desenvolvimento e construção dos equipamentos esportivos e também pela infraestrutura dos Jogos Olímpicos de Londres, iniciou os trabalhos para a capital inglesa sediar a Olimpíada, talvez não soubesse que estava estabelecendo um novo marco na organização desse tipo de megaevento. Porém, mais de seis anos depois da escolha da cidade pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e faltando menos de um ano para o começo do espetáculo, será difícil realizar qualquer acontecimento do mesmo porte — inclusive Copa do Mundo — sem olhar para o que foi feito pelos ingleses no seu Parque Olímpico. Os gastos ficaram dentro do orçamento total de £ 9,3 bilhões — sendo 75% investidos com obras que permanecerão como legado para uso permanente da população.
O projeto surpreende desde o começo. A candidatura de Londres se apoiava na proposta de aproveitar a oportunidade dos Jogos Olímpicos para transformar e regenerar uma das mais degradadas áreas da Inglaterra. O local, visitado pela revista O Empreiteiro (incluindo o interior do Parque Olímpico), fica localizado no leste da cidade, em uma região de histórico nada louvável.
Há 200 anos, indústrias têxteis e químicas se instalaram por lá, contribuindo para criar as primeiras rejeições ao local tamanha a poluição sem controle. Nas décadas mais recentes, a localidade passou a ser sede de oficinas mecânicas, pequenas fábricas de pouco valor industrial e depósito de todo tipo de material. De caráter residencial, havia apenas pequenos blocos de prédios, bastante deteriorados, erguidos na década de 1970, ocupando limitada área da região. Ruas com muros pichados e ar de abandono imperavam. Enfim, um bairro pouco aprazível e sem nenhum plano de desenvolvimento.
“Há muitos imigrantes na região (calcula-se que 120 línguas são faladas na localidade). É uma das mais pobres do país. A expectativa de vida é sete anos menor do que a média da Inglaterra. O nível de educação também é baixo. A proposta foi transformar o local”, relata Jerome Frost, que trabalhou como chefe de projetos e regeneração da ODA desde quando Londres foi indicada cidade-sede — com os trabalhos no Parque Olímpico quase encerrados, Frost passou este mês (novembro) a integrar o corpo diretivo da Arup, empresa global de arquitetura e engenharia.
INÍCIO
Antes do início das obras essenciais para a construção e revitalização da área do Parque Olímpico, foram dedicados pela ODA dois anos de planejamento para assegurar que durante o período de quatro anos de obras o mínimo de imprevistos acontecesse. Um detalhado documento relacionava todas as atividades a serem realizadas, com a definição prévia dos riscos, dos custos – premissa básica de fazer com custo baixo - e o legado. O foco era na sustentabilidade, no benefício público e no dinheiro do contribuinte, evitando criar algo que não pudesse ser usado ou comercializado no mercado depois da Olimpíada.
“Legado não era uma palavra comum associada aos Jogos Olímpicos. Quando transportamos esse conceito para a Olímpiada de Londres, o compromisso tornou-se gigantesco. Com ele, transforma-se não somente o ambiente físico local, mas também o ambiente econômico e social”, explica Jerome Frost. O fato de Londres já possuir inúmeros lugares prontos com capacidade para atender aos Jogos, fez com que a necessidade de mostrar o valor de construir novos equipamentos fosse ainda maior.
De acordo com o arquiteto, a responsabilidade aumentou ainda mais quando uma série de atentados um dia depois da escolha da cidade, em 2005, atingiu a rede de metrô e ônibus da cidade, deixando mais de 50 mortos e 700 feridos. “Fomos do entusiasmo para algo terrível”, lembra. Mas foi preciso olhar para frente e dar início ao projeto.
Para dar suporte a operação, a ODA contratou logo no começo dos estudos o consórcio CLM (CH2M Hill, Laing O’Rourke e Mace) para gerenciar todos os projetos voltados às construções para a Olimpíada, uma forma segura de garantir que aquilo que estava sendo proposto seria entregue dentro do prazo e do orçamento pelos contratados. Somente nas obras T1 (maior relevância) eram cerca de 300 contratos. No nível T2, aproximadamente 1 mil contratos. Nesse tempo inicial de planejamento, apenas trabalhos básicos foram realizados.
Assim, vieram as demolições para a construção do futuro Parque Olímpico que alcançaram aproximadamente 200 edificações - mais de 90% do material da demolição foi reaproveitado ou reciclado. Os moradores das poucas edificações residenciais foram removidos para outras localidades de Londres. Altas indenizações foram pagas aos cerca de 400 proprietários de terras e prédios na área. No entanto, a ODA tinha certeza do retorno social e econômico do investimento.
Nesse aspecto, a comunidade no entorno foi amplamente envolvida. “Foi um grande exercício. Alguns estavam muito interessados. Tivemos que explicar o que aconteceria ali. Tinham pessoas que queriam se envolver, trabalhar nas obras”, relata Frost.
Depois, começaram os trabalhos no canteiro de obras. No total, 2,4 milhões de m³ de terra foram movimentados, sendo que mais de 2 milhões de t de terra foram descontaminadas, tratadas e redistribuídas no próprio local. Apenas 2% da terra contaminada foi descartada devido ao elevado grau de substâncias nocivas. Chegou-se ainda a identificar no terreno do futuro Parque Olímpico milhares de cavidades abertas no solo para despejo de dejetos fruto de séculos de ocupação industrial desordenada. 
DESPOLUIÇÃO
Também sofreu processo de despoluição três rios que cortam a área do Parque Olímpico e rumam em direção ao rio Tâmisa, que fica próximo. Foram retirados dos rios 30.000 t de lixo, incluindo carrinhos de supermercado, pneus velhos e até carros abandonados. São 8,3 km de rios que passam no Parque Olímpico. Os mesmos estão sendo dragados para possibilitar plena navegação a partir dos Jogos.
O Parque Olímpico de Londres foi construído em uma área de 246 ha – o mesmo tamanho do famoso Hyde Park, na região central da capital inglesa —, com oito equipamentos esportivos que receberão diversas modalidades olímpicas.
Durante as obras (que poderiam ser acompanhadas pela internet por meio de webcams estrategicamente posicionadas), a cada minuto, até cinco entregas de materiais e equipamentos chegavam ao local – mais da metade deles por trem e alguns pelos rios. No pico dos trabalhos, 10 mil operários foram mobilizados – durante todo o período de trabalhos no local, cerca de 30 mil pessoas se envolveram no projeto. Desse total, 25% da mão de obra foi contratada nos bairros do entorno do Parque Olímpico de Londres – treinamento especializado foi oferecido para que esse contingente se integrasse às obras e, obviamente, à iniciativa.
Mais de 10 mil empresas no Reino Unido forneceram todo tipo de material e serviços ao centro olímpico, desde componentes de concreto e aço até plantas. As empresas interessadas deveriam se registrar em site específico na internet para concorrer às oportunidades públicas e privadas de negócios ligados aos Jogos Olímpicos.
Hoje, 6 mil pessoas dão os retoques finais no Parque Olímpico, nos trabalhos de pavimentação, paisagismo, acabamento dos equipamentos esportivos, complementação das instalações elétricas e hidráulicas. Atualmente, estão programados eventos testes nos diversos espaços do local.
O enorme parque deverá receber um público de até 500 mil visitantes/dia durante os Jogos. Na área, quatro mil árvores foram plantadas. Haverá 45 ha de área verde, inclusive com a reposição da fauna existente.
Após a Olimpíada, o Parque Olímpico de Londres se transformará em um parque público. Uma empresa será criada especificamente para cuidar do legado.
Estádio olímpico
O principal equipamento esportivo do Parque Olímpico de Londres, o estádio olímpico ocupa 16 ha. Por conta dos rios no entorno, cinco pontes foram construídas – há 30 novas pontes e passagens em todo o centro olímpico - sobre eles para dar acesso ao estádio – o local mais parece estar em uma ilha. No passado, existia apenas uma ponte interligando o núcleo de indústrias existentes no bairro.
O estádio terá capacidade de 80 mil lugares durante os Jogos – 25 mil assentos permanentes na arquibancada inferior; a arquibancada superior tem 55 mil lugares e poderá ser removida após a Olimpíada.
O estádio é em formato elíptico, com um longo eixo de 315 m e um mais curto de 256 m. Ele alcança uma altura máxima de 60 m acima do campo – que foi construído a 10 m abaixo do nível do solo - e possui um perímetro de 860 m. A arquitetura do estádio olímpico foge do padrão inglês de estádio, em geral erguido com quatro módulos retos de arquibancada, íngrimes e muito próximas do campo.
A arquibancada tanto superior como inferior foi erguida com elementos de concreto pré-moldado, suportados por vigas de aço. A estrutura de sustentação da arquibancada superior foi aparafusada e não soldada, para possibilitar justamente a sua remoção.
A cobertura de estrutura metálica, também desmontável, é compostos por painéis de membrana translúcida de 1 mm de espessura, que protege contra intempéries aproximadamente 2/3 dos espectadores. Para suportá-la, foram colocadas 28 estruturas de aço. A cobertura de 45 mil m² e 450 t de estrutura conta ainda com 14 torres de luzes. Foram seis semanas para erguê-la.
Trata-se do estádio olímpico mais sustentável construído, contendo 10 mil t de aço – 75% menos que a média utilizada em outros estádios desse porte. Foi também feito de concreto com 40% menos carbono em relação ao concreto tradicional.
Tubulações de gás que suportam a cobertura e a iluminação foram retiradas de um excedente desse material existente no País.
Cerca de 6,5 mil m³ de concreto triturado – removido de demolições no próprio Parque Olímpico – foi usado no solo para posterior construção das fundações do estádio.
Tudo no estádio foi também milimetricamente medido. No estágio de desenvolvimento do projeto, foi usado um sistema para avaliar vários níveis de cobertura para definir a melhor opção para que ventos atingissem o menos possível a pista de atletismo durante as competições e o desempenho dos atletas – para que recordes sejam registrados, é preciso que os ventos estejam com velocidade menor que 2 m/s.
O estádio foi feito dentro do orçamento de cerca de £ 400 milhões e entregue um ano antes da Olimpíada. Após os Jogos, já com o número de lugares reduzido, será possivelmente sede de algum time de futebol profissional inglês. No entanto, a indefinição tem sido no uso da pista de atletismo. Os clubes interessados na concessão querem transformar a pista em assento para torcedores, mas pelas regras de cessão do estádio, o circuito de provas de atletismo deve ser preservado – inclusive para futuras competições internacionais. Os times de West Ham e Tottenham Hotspur disputam os direitos de usar o estádio.
Parque aquático
O parque aquático da Olimpíada de Londres, com 17,5 mil lugares, foi erguido com duas arquibancadas removíveis de 42 m de altura cada em seus extremos – será reduzido para 2,5 mil lugares, com possibilidade de adicionar mais mil em eventos maiores. As arquibancadas removíveis serão usadas em outro local ainda não definido. Assim, no parque aquático será mantida somente a seção central.
O projeto do local é da arquiteta iraquiana Zaha Hadid – em 2004, foi a primeira mulher a receber o Prêmio Pritzker de Arquitetura pelo conjunto de sua obra. Trata-se da mais complexa construção feita no centro olímpico londrino.
Com duas piscinas de 50 m, o espaço possui cobertura de 160 m de comprimento, 80 m de largura em seu ponto maior e 44,3 m de altura – serão 32,8 m quando o complexo for reduzido. Trata-se de uma estrutura de aço pesando mais de 3 mil t, compostas por placas de alumínio reciclado.
A modelagem 3D foi amplamente utilizada para a execução da complexa estrutura do centro do parque aquático. Depois de cinco meses de laboratório e testes, a seção central curvada do equipamento esportivo acabou sendo construída em concreto, com três torres de sustentação – uma no lado sul e duas no norte.
A fundação do parque aquático levou nove meses para ficar pronto. A quantidade expressiva de tubulações de esgoto – há 1,5 km de canais de esgoto na área do Parque Olímpico - passando debaixo do local e um riacho muito próximo exigiram cuidados especiais.  
Ao lado do parque aquático, foi montada arena temporária para a modalidade de pólo aquático nos Jogos, com cinco mil assentos e cobertura feita de poliéster. A estrutura se inicia a uma altura de 12 m e termina com altura de 25 m.
Velódromo
Com seis mil assentos, o velódromo tem 250 m de pista e 35 m de altura. O velódromo é um dos cinco maiores equipamentos do Parque Olímpico de Londres – foi um dos últimos a iniciar as obras e o primeiro a terminar. Foram 118 semanas de trabalho, incluindo a pré-construção.
A estrutura é sustentada por pilares com até 26 m para atender a geometria da cobertura côncava. A cobertura é formada por 15 km de redes de cabos de 36 mm de diâmetro que apóiam placas de alumínio reciclado. O velódromo tem acabamento de madeira nos lados.
Depois da Olimpíada, o espaço será um centro de ciclismo, que também inclui trilhas de montain bike do lado externo. Vale ressaltar que a Inglaterra tem tradição no ciclismo.
Arena basquete
A arena de basquete é um dos maiores equipamentos esportivos temporários usados em uma Olimpíada. O ginásio com 35 m de altura é coberto por 20 mil m² de PVC branco reciclado. Possui assentos para 12 mil espectadores suportados por uma estrutura de aço de 1.000 t. Durante os Jogos, à noite, a membrana pode ser usada como um painel artístico com o uso de luzes projetadas internamente. Durante o dia, é capaz de refletir a luz natural. A arena lembra o famoso cubo d’água dos Jogos Olímpicos de Pequim. Dez arcos de aço de 115 m de comprimento sustentam a cobertura.
Depois dos Jogos, a arena será desmontada e os elementos serão usados em outros eventos no Reino Unido e Exterior ou revendidos. O equipamento foi erguido em apenas três meses.
Eton Manor
Local de nado sincronizado dentre outros atividades aquáticas dos Jogos, o Eton Manor (erguido em local de antigo clube de mesmo nome) terá assento temporário para 10,5 mil espectadores durante a Paraolimpíada, com a utilização do espaço para a modalidade de tênis em cadeira de rodas. Depois da Olimpíada, será transformado em um centro de tênis e um centro de hóquei com duas quadras (que virão provenientes do centro de hóquei temporário também montado no Parque Olímpico de Londres especificamente para atender aos Jogos).
O desafio do projeto do Eton Manor foi encontrar soluções na fundação que se adaptassem aos diferentes tipos de estrutura envolvendo os elementos permanentes e os temporários do local.
Handebol arena
Com 6,5 mil assentos, a handebol arena é coberta por 3 mil m² de painéis de cobre. O local tem luz natural alimentada durante o dia através de 88 tubos distribuídos na cobertura, que permite a entrada de iluminação natural, economizando mais de 40% de energia do espaço.
O equipamento será mantido após os Jogos como uma arena multiuso.
Complexo de mídia 
O complexo de mídia é dividido pelo International Broadcast Centre (IBC) com 56 mil m² - a maior edificação do parque - e o Main Press Centre (MPC) com 30 mil m².  Cerca de 20 mil profissionais de imprensa utilizarão o local durante o megaevento. Grandes redes de televisão americana, alemã e japonesa, que compraram direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, ocuparão a maioria dos espaços disponíveis no IBC.
O complexo, depois dos Jogos, poderá ter diferentes configurações, como escritórios comerciais. O local já foi alugado a uma grande empresa por 10 anos.
Subestação de energia
Uma subestação foi ampliada e modernizada – já existia uma pequena e antiga usina - para gerar energia e calor, quando necessário, para todos os equipamentos do parque. A energia vem da matriz biomassa, a partir da queima de madeira e gás natural. O complexo da mídia é responsável por 80% do consumo de energia dentro do Parque Olímpico.
Depois dos Jogos, a energia gerada será distribuída a mais de 10 mil residências da região.

Vila olímpica
A vila olímpica dos Jogos de Londres, com 24 ha, possui 11 blocos residenciais, com 2.818 apartamentos. A vila fica dentro do Parque Olímpico e receberá 23 mil atletas olímpicos e paraolímpicos, além de comissões técnicas. São 6 km de ruas no local. No total, 24 gruas trabalharam na vila olímpica no pico da obra.
Após a Olimpíada, os apartamentos serão ocupados por residentes permanentes. Cerca de 90% dos apartamentos já estão vendidos.
Novos prédios residenciais estão previstos de serem construídos em algumas das imensas praças localizadas entre os equipamentos esportivos.
ArcelorMittal Orbit
A mais proeminente obra de arte do Parque Olímpico de Londres é uma escultura de 115 m, desenhada pelos artistas Anish Kapoor e Cecil Balmond. Ela fica entre o estádio olímpico e o parque aquático. A escultura é a mais alta do Reino Unido, tem formato tubular de aço e é pintada de vermelho. A escultura possui duas plataformas, uma aos 76 m e outra aos 80 m do piso. A construção começou em outubro de 2010 e o término está previsto para o início de 2012. Foram mais de 30 mil h somente para desenvolver o projeto. Durante a Olimpíada e depois, visitantes poderão subir às plataformas da escultura e observar a vista lá de cima.
Transporte e centro de compras
Foram investidos £ 6,5 bilhões para melhorar o transporte na área do Parque Olímpico. A previsão é que 50% dos visitantes irão se dirigir ao local pela estação de trem e metrô de Stratford, localizada anexa ao Parque Olímpico.
Assim, foram feitas melhorias na estação de Stratford, além de extensão da linha Docklands Light Railway (DLR) de Stratford International para Canning Town, construção de novas plataformas e reforma em outras estações próximas de metrô e trem. Um trem de alta velocidade chamado Javelin conectará a região central de Londres (estação de King’s Cross St. Pancras) à estação de Stratford. No total, 10 linhas de metrô e três estações servirão o Parque Olímpico (Stratford, Stratford International e West Ham).
O transporte ao longo do rio Tâmisa – que corta o lado leste de Londres e passa relativamente perto do centro olímpico - também está sendo melhorado para criar mais opções de transporte na região.
A proposta é fazer com que todos os visitantes se dirijam ao Parque Olímpico utilizando transporte público.
Além disso, oito rotas de caminhos a pé e de bicicleta foram criadas para atender ao Parque Olímpico e outros locais de competição na cidade. Seis mil estacionamentos de bicicletas serão especialmente criados para atender aos Jogos.
Um enorme complexo comercial criado ao lado do Parque Olímpico chamado Westfield Stratfort City impulsionará ainda mais o desenvolvimento da região. Trata-se do maior shopping center da Europa, com 300 lojas, bares, restaurantes, dois hotéis, cinema, escritórios e apartamentos. Já com boa parte das instalações em operação, o investimento no empreendimento comercial foi de £ 1,5 bilhão. Estima-se que será uma das principais fontes de emprego na localidade.
 
Planejamento e análise prévia de riscos fizeram a diferença
Joseph Young – Londres (Inglaterra)
“Não há obra que a engenharia atual não faça – depende só do prazo e da conta”. Dizer isso parece arrogância de quem exerce a profissão. Mas, a Olympic Delivery Authority (ODA), entidade pública britânica encarregada de “entregar” pronto o Parque Olímpico de Londres, e o consórcio gerenciador contratado (CLM - CH2M Hill, Laing O’Rourke and Mace) para coordenar a execução do empreendimento de dimensões incomuns, provaram com um ano de antecedência em relação ao cronograma oficial que a frase está correta.
A ODA e o consórcio CLM cumpriram a cartilha, em planejamento e gestão, ao pé da letra. Durante dois anos, dedicaram-se ao estudo minucioso de cada projeto, cada um deles detalhados em até 200 atividades, as quais foram planejadas a execução, prevendo-se as eventuais contingências inevitáveis e seus riscos, medidas corretivas e mudanças. Quando surgia uma ocorrência não programada, as possíveis soluções já se encontravam alinhadas.
A ODA conta com uma equipe de 200 profissionais e o CLM, cerca de 500, recrutadas em diversos países, com experiências variadas que foram valiosas na condução desse processo de gestão. Engenheiros da indústria de petróleo, por exemplo, agregaram importante vivência na gestão de processos aos seus colegas de engenharia civil e construção no empreendimento, que incorpora uma complexidade e ambição poucas vezes vistas.
A Inglaterra ousou na sua proposta de sediar a Olimpíada 2012, em fazer o resgate da região de East London, que era historicamente a mais pobre do país e da capital, onde moravam imigrantes recém-chegados de baixa renda que falavam mais de 100 idiomas ou dialetos. O sítio escolhido para o Parque Olímpico continha entulho e lixo industrial de muitas décadas, inclusive tóxicos, obrigando a remoção total de uma camada de solo de até 3 m de profundidade, que foi depurada para se eliminar os contaminantes, reaproveitando-se o material são no próprio local.
Esse trabalho de terraplenagem e reciclagem do solo teve início imediato, por causa do volume de material previsto, enquanto os estudos de planejamento se aprofundavam ao longo de dois anos.
Com a ideia ambiciosa de formar um novo polo urbano e econômico em East London, era preciso criar condições para reverter o atraso e o abandono da região, embora se localizasse entre bairros vibrantes de Londres e o novo centro financeiro de Canary Wharf na região de Docklands. O clima e a paisagem dos parques e jardins londrinos foram replicados no Parque Olímpico, com instalações e equipamentos que possibilitam atrair moradores de alta renda aos empreendimentos imobiliários pós-Jogos, cuja presença visa alterar o mix demográfico, elevando o padrão de vida local.
A menos de um ano do início da Olimpíada, £ 1 bilhão do orçamento total continua reservado para os trabalhos pós-jogos — incluindo o desmonte de quase metade da estrutura do estádio olímpico; a retirada das duas arquibancadas laterais do centro aquático — que quebram hoje as linhas fluidas do projeto da arquiteta Zaha Hadid —; a remoção completa do ginásio do basquete e das quadras de hóquei; a redução a uma escala “humana” da maioria das 80 pontes construídas sobre os rios que cruzam o parque (20 delas de acesso externo); a retirada de boa parte dos pisos pavimentados para dar lugar a espaços verdes; a instalação de cozinhas nos apartamentos da vila olímpica, que já tem 90% deles vendidos a moradores permanentes etc.
Dentro desse conceito de privilegiar o permanente, colocando em segundo plano os equipamentos provisórios montados para a Olimpíada que dura apenas quatro semanas, todas as estruturas foram projetadas para construção pelo processo tradicional e de custo mais competitivo. Os perfis metálicos são todos de medida padrão, facilitando sua revenda após a desmontagem. Dois ou mais perfis são soldados para obter uma peça mais robusta, ao invés de se encomendar um perfil sob medida. Pré-moldados de concreto foram empregados sempre que possível, inclusive no estádio olímpico, facilitando mais uma vez sua desmontagem posterior.
O amplo centro de telecomunicação, que por exigência das emissoras de televisão não possui janelas para entrada de luz natural, já foi arrendado por 10 anos pelo estúdio de produção que realizou os filmes de Henry Potter. Outro edifício permanente será destinado às festas da numerosa comunidade paquistanesa da região, que não tinha local apropriado para celebrações que costumam reunir pequenas multidões.
Os espaços públicos do Parque Olímpico são proporcionais ao público que espera receber — média de 280 mil pessoas ao dia, sendo 80 mil espectadores nas arenas e 200 mil visitantes acompanhando os jogos pelos telões, jardins e espaços de lazer. Quem visitar o local neste final de ano encontrará ainda muitos canteiros, máquinas e equipes de homens trabalhando. Mas os principais equipamentos, arenas e espaços, inclusive a vila olímpica com mais de 2 mil apartamentos, estão concluídos. As obras atuais são de acabamento final. As árvores vistas no parque já medem mais de 5 m de altura, transferidas de viveiros onde foram plantados há algum tempo. Os trabalhos de paisagismo ainda terão uma etapa final 60 dias antes de se abrir os Jogos.
No projeto e gerenciamento desse conjunto de atividades e obras, a modelagem BIM foi extensivamente empregada. O software CAD ainda dominante nas obras foi em 2D, porque o uso do recurso em 3D, embora possível, consumiria um tempo de processamento considerado excessivo pela equipe técnica.  Um registro as-built foi realizado em 100% das instalações, para uso da nova empresa pública encarregada da sua operação pós-jogos.
A ODA se propôs a deixar um legado melhor do que aquele deixado pelos Jogos de Beijing, Barcelona e Melbourne. Mas só daqui a alguns anos será possível avaliar-se se essa ambição se materializou e a população ganhou efetivamente um novo East London.
 


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Fonte: Padrão
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