Uma olimpíada de IDEIAS, ESPERANÇAS E PROMESSAS
A Olimpíada de 2016 no Brasil pode significar melhorias permanentes para a cidade. Pelo menos é o que promete o projeto vencedor do concurso internacional para o Parque Olímpico
Joás Ferreira
Depois do futebol, das primeiras fundições modernas, dos serviços de energia elétrica e transportes coletivos e estradas de ferro, chegou agora a vez dos ingleses mostrarem como se faz um parque olímpico. Foi um escritório da Inglaterra que ganhou o concurso internacional realizado pelo governo brasileiro para a escolha do plano urbanístico para a Olimpíada 2016, no Rio de Janeiro. Coincidentemente, venceu a disputa o mesmo escritório que projetou o festejado complexo olímpico londrino, para os jogos de 2012 e que ficou pronto um ano antes (veja matéria nesta edição). Empresa projetista ganhadora, a Aecom figura também como responsável pelo projeto Nova Luz, de recuperação urbana, em desenvolvimento na chamada região da Cracolândia, em São Paulo.
A grande preocupação que norteou o projeto vencedor para o Parque Olímpico do Rio e que foi o objetivo do governo brasileiro, desde o início, ao se candidatar a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, é com o legado que esse megaevento pode deixar para o futuro da cidade.
O memorial descritivo do projeto afirma que o Rio de Janeiro combina uma experiência urbana dinâmica com cenários naturais exuberantes. Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016 e o legado do Parque Olímpico, da Barra da Tijuca (onde será edificado) darão continuidade a essa forte tradição.
“Nossa proposta propiciará as condições necessárias para que estes Jogos Olímpicos sejam excepcionais e estabelecerá uma estrutura realística e inovadora para um legado urbano e desportivo profundo e duradouro para a Barra da Tijuca, para o Rio e para o Brasil. O Parque Olímpico deverá ser um desenvolvimento urbano de padrão internacional que não só promova o melhor em design, tecnologia, esporte e cultura, mas que também satisfaça necessidades urgentes e vitais intrínsecas para seus moradores, empresas e para o meio ambiente. Lançando mão da nossa experiência, queremos assegurar que o investimento e a energia focada na Barra promovam o maior benefício possível, no longo prazo”, diz o arquiteto Bill Hanway, um dos autores do projeto.
Outro desafio enfrentado, na missão de projetar o complexo olímpico, foi o de conciliar as necessidades de um palco para o evento esportivo com a criação de uma nova estrutura urbana bem sucedida e duradoura. Ou seja: “Evitar o esvaziamento urbano seguido de uso inapropriado e marginalização pós-jogos de praças vazias, concebidas para grandes multidões que possivelmente não se reunirão mais naquele local. A proposta é um parque olímpico de padrão internacional abrangendo estruturas permanentes e temporárias sobre as quais uma nova rede de ruas e praças da futura cidade irá se assentar”.
Para o Parque Olímpico da Barra, que fica entre montanhas e de frente para a Lagoa Marapendi, os Planos Gerais Urbanísticos estabelecem respeito e reforço ao equilíbrio entre a ecologia nativa, a cidade e seus habitantes. Os autores do projeto veem o local como um forte candidato para a certificação LEED ND (Leadership in Energy and Environmental Design Novo Desenvolvimento) – que é concedida a edificações de alto desempenho ambiental e energético.
O local será parte intrínseca do sistema de bacias hidrográficas da região, enquanto corredores ecológicos irão armazenar e limpar a água da chuva e, naturalmente, resfriar o microclima local. “O corredor do vale desempenhará a função de conexão física com a lagoa e formará a ‘Via Olímpica’ – área central de convívio para espectadores dos Jogos”, diz o memorial descritivo da obra.
LIVE SITE
A Via Olímpica será um elemento de conexão entre todos os locais dos Jogos, para livre movimentação dos espectadores. A via se eleva, suavemente, sobre a via coletora do circuito-olímpico criando um ponto de observação e desce novamente ao nível do solo para culminar no Live Site, praça de transmissão ao vivo dos jogos de frente para a lagoa.
Depois dos jogos, essa forma será mantida como uma memória dos jogos e serão introduzidos novos elementos de paisagem ao longo da sua extensão, a fim de transformá-la em uma esplanada verde sinuosa ligando o parque, a lagoa, as arenas esportivas permanentes e as novas áreas de desenvolvimento do legado urbano.
Estruturas de coberturas marcantes em cada área, inspiradas pela flora rara encontrada dentro da Mata Atlântica, foram programadas para proporcionar sombra e abrigo para os espectadores. Algumas serão permanentes; outras, temporárias, serão desmontadas após os Jogos e realocadas na cidade.
O Live Site fica localizado no extremo sul do parque e rodeado por uma passarela elevada de pedestres. Terá 160 m de diâmetro, podendo acomodar até 25 mil espectadores. Após os Jogos, esse local deverá receber um projeto de reflorestamento, com espécies nativas da Mata Atlântica, contribuindo para absorver carbono, incorporar a biodiversidade urbana e servir de base para a formação de um centro de educação florestal.
Propagando-se a partir do local dos jogos e do Live Site, está prevista a implantação de um novo parque que deverá criar um corredor contínuo de lazer ao longo da orla da lagoa. Esse parque fornecerá espaço abundante durante os Jogos e oferecerá, posteriormente, áreas para a criação de um viveiro temporário de árvores e plantas nativas.
A maior ambição do projeto, segundo os autores, é expandir o parque, ligando pontos estratégicos ao redor da lagoa e fornecendo um ambiente de convívio e lazer para os habitantes e visitantes da Barra da Tijuca.
ÁGUA
Do outro lado do Parque Olímpico da Barra, haverá “jardins de chuva” com a função de filtrar o escoamento das águas pluviais. O projeto prevê o plantio selecionado e camadas de solo cuidadosamente construídas para fornecer tratamento biológico. Esse será um projeto âncora para iniciar melhorias semelhantes em outras partes da lagoa e criar um complexo sistema de corredores ecológicos que apoiará ricos ecossistemas na área.
Tendo a água como inspiração central do projeto para os Planos Gerais Urbanísticos, foi proposta a utilização de sistemas de água eficientes e robustos dentro dos ambientes naturais e artificiais, e construções e paisagens para gerenciar e reconectar o ciclo da água no local, proporcionando, com isso, o mínimo de impacto. A intenção é reduzir a demanda em todos os sistemas na fonte, limitar os fluxos de águas residuais, minimizar importação e exportação de água, e fazer pleno uso no local de águas residuais colhidas e recicladas.
Padrões de eficiência hídrica serão criados para a transformação e o legado. Em menor grau, a água reciclada será usada para descargas de vasos sanitários e irrigação das áreas tratadas com paisagismo, reduzindo o consumo desnecessário de água potável. A coleta de água da chuva será feita em todas as construções com um perfil de demanda adequado. Uma estratégia de drenagem integrada garantirá que o escoamento seja minimizado e filtrado na fonte, através de pavimentação permeável e tratamento paisagístico. Apenas os fluxos limpos serão liberados para a lagoa.
Um esquema desse porte dá uma oportunidade única para fornecer tratamento de esgoto no local. No futuro, isso permitirá criar uma rede de águas residuais estratégica como parte de um programa mais amplo de saneamento na Barra da Tijuca. Os fluxos de águas residuais do parque serão tratados por uma Estação de Tratamento de Esgoto, Bio Reactor, antes da reutilização ou descarga em novas áreas úmidas.
Esse processo, que está sendo adotado com sucesso no Parque Olímpico de Londres para 2012, foi selecionado por sua eficiência energética, confiabilidade, durabilidade, falta de odor, tamanho compacto e facilidade de integração com a reciclagem da água. As obras de tratamento terão capacidade suficiente para lidar com fluxos de águas residuais adicionais durante os Jogos e, como legado permanente, poderão tratar uma parte do esgoto dos empreendimentos no entorno e ajudar a resolver problemas de qualidade da água na lagoa.
ENERGIA
“O uso mais eficiente da energia é não usá-la”, definem os autores do projeto. Por isso, o Plano Geral Urbanístico está focado em uma estrutura e ordenamento de construções que mesclam iluminação natural com elementos paisagísticos e ecológicos de sombreamento para obtenção de ambientes claros e ao mesmo tempo bem ventilados, que oferecem temperatura amena através de um resfriamento evaporativo. O carbono incorporado será reduzido em pelo menos 20%, através de projeto e construção, e será elaborado um programa, para tal redução, específico para o evento.
Uma vez que o design eficiente seja maximizado, uma baixa fonte de carbono resistente e segura será fundamental – o uso da rede pública de abastecimento de energia no Brasil, que já conta, em grande parte, com fontes renováveis, será a estratégia energética mais eficiente. Aproveitando a grande quantidade de luz solar, painéis solares fotovoltaicos também foram incorporados às ‘vilas’ que fazem parte da paisagem do parque. Durante os Jogos, será necessário um centro temporário de energia. A visão mais ampla de energia renovável é testar a colocação de uma série de turbinas de vento de grande porte nas montanhas ao norte do Parque Olímpico da Barra para gerar energia renovável e demonstrar o compromisso do Estado do Rio de Janeiro com a sustentabilidade.
Emissões de carbono residuais, que não podem ser evitadas, serão medidas através de um estudo de base da presença de carbono e compensadas por meio do plantio aprovado de florestas e investimentos em projetos de energia eficiente nas comunidades do entorno.
POLUIÇÃO E DESPERDÍCIO
O programa de aquisição Rio Olimpíada Verde será usado como um catalisador para a maior aceitação das práticas de compras sustentáveis, limitando o desperdício através de programas de conscientização ambiental. Contratos públicos ecológicos e certificação nas fases de construção oferecem uma oportunidade para desenvolver padrões sob medida de construção sustentáveis brasileiras, ligados ao LEED e ao Conselho Brasileiro de Construção Sustentável. Isso incluiria uma série de regras abrangentes para reduzir impactos, promover ecologia local específica para florestas tropicais, estabelecer aquisições éticas, selecionar materiais cuidadosamente e trabalhar com cadeias de fornecimento de materiais construtivos locais minimizando a dependência em materiais produzidos em outras regiões, longe do Parque Olímpico a ser construído.
Durante a construção e entre Jogos e como legado, objetivam-se minimizar a poluição sonora e do ar, reduzir o desperdício na construção e maximizar a reutilização de materiais.
INTEGRAÇÃO DE ESPAÇOS
Todos os principais locais serão visíveis do espaço principal e implantados dentro de uma configuração espacial compacta, ao nível do solo, localizados de forma que o cronograma esperado dos Jogos possa prosseguir sem que a área comum fique superlotada.
As margens de todos os locais são naturalmente “fluidas”, o que inspira a conectividade entre eles. Ao mesmo tempo, também foi considerado o melhor arranjo de longo prazo para o Centro de Treinamento Olímpico (COT) a ser criado, sem comprometer os requisitos dos Jogos.
Os esportes aquáticos, o hóquei e um dos locais de tênis são temporários. O centro aquático estará situado no início do Parque Olímpico — uma estrutura de mastros e cabos tensionados que cria uma sensação de leveza estrutural, proporcionando um forte impacto visual na chegada, na forma de um ícone para o parque durante os Jogos. As arenas de tênis empregarão estruturas leves e tensionadas, semelhantes, com sua localização pitoresca - na beira da lagoa.
O velódromo foi programado para ocupar o local do atual velódromo do Pan Americano de 2007 e, embora a instalação atual não seja apropriada para os Jogos, é um local-chave e a abordagem do projeto prevê a reutilização, máxima possível, da pista existente. No legado, este será um ponto focal para o parque e para a comunidade, e será utilizado como um local de treinamento e competição, proporcionando uma ligação física entre o COT e o parque maior.
O COT vai ocupar 25% da área do parque, abrigando no mínimo 12 esportes olímpicos. Será um marco arquitetônico com um legado olímpico único, mas, em primeiro lugar, ele será um centro de excelência esportiva onde os atletas e as equipes poderão desenvolver seu talento.
O local incluirá centro de boas-vindas, museu nacional de esportes, alojamento de atletas, clínica de medicina esportiva e instituto de desempenho avançado. Recomenda-se o estabelecimento de um instituto nacional esportivo centralizado, focado em desenvolver o talento esportivo e hospedar projetos educativos. Isso incluiria instalações de ensino e palestras, salas de vídeo, bibliotecas, centro principal de força e condicionamento e escritórios para federações esportivas e para o COT.
TRANSPORTE E ACESSOS
Eficiência e precisão na definição do transporte são aspectos fundamentais para o sucesso do evento. Tanto a circulação interna como o acesso ao Parque Olímpico da Barra também necessitam ser considerados, no contexto do legado, a fim de fazer o melhor uso do investimento em infraestrutura, maximizar a circulação de pedestres e auxiliar a criação de uma zona urbana vital. Para isso, foi criado um plano que permite que as vias principais e a infraestrutura estejam nos locais corretos.
Para os Jogos, a abordagem foi a de trabalhar dentro dos limites do Parque Olímpico, utilizando as ligações rodoviárias existentes e a rede mais ampla de estradas olímpicas. Os tipos de evento para cada um dos locais ditam a magnitude das necessidades de transporte e determinam as prioridades de fornecer acesso e saída segura para todos no parque, e facilitar com eficiência e conveniência à circulação do staff de serviço e veículos.
O plano geral urbanístico dos jogos foca (veja a ilustração):
• Uma rota protegida desde a vila olímpica dos atletas e da área de transferência de materiais até o oeste do parque da Barra, utilizando um viaduto sobre a avenida Salvador Allende.
• Adaptação da rotatória no extremo noroeste do parque que inclui uma área de triagem transitória BRT (Bus Rapid Transport); acesso para entrada e saída do centro de mídia e praça dos transportes; áreas de triagem de veículos (VSA) e acesso à área de serviço; e remodelação da avenida Embaixador Abelardo Bueno, ao sul, para melhorar a capacidade e o trânsito leste-oeste.
• Remodelação do acesso existente a leste da área, proporcionando um VSA e um acesso e saída de “fundos” para T1, T2 e elementos de T3.
• Intercâmbio e entrada de transporte T5.
A proposta objetiva reaproveitar as instalações, quando necessário e utilizar infraestrutura facilmente desmontável. Após o período de transformação, a abordagem reforça o uso do BRT e foca o acesso de alta qualidade ao COT e aos locais associados.
O design do intercâmbio de transporte e entrada T5 foi desenvolvido para um fluxo de chegada de 60 mil espectadores/hora (pico), com base na experiência em projetar instalações similares para os jogos olímpicos e micro-simulação de modelagem de veículo e software de circulação de pedestres.
A ideia é atingir a progressão sem obstáculos para espectadores T5 da estação BRT, através dos mecanismos de credenciamento e segurança no parque, usando:
• Acesso de veículos de alta capacidade com arranjos de triagem para separar BRTs por via e encaminhar pelotões (comboios) de ônibus para áreas específicas da estação.
• 40 pavilhões de ônibus cuidadosamente dimensionados e dispostos de forma eficiente em ângulo.
• Separação total da circulação veicular e de pedestre - fundamental para a segurança e acessibilidade.
• Amplo espaço para encontro de grupos e resolução de assuntos como emissão de bilhetes e credenciamento.
• Uma fila de portões de alta capacidade para a validação de bilhetes eletrônicos, com a possibilidade de portões separados flexíveis para T3, T4 e visitantes T5.
• Uma área de controle de segurança ao longo do perímetro norte do local, com entradas e saídas de pessoal, com base em uma estrutura de três arcos de triagem de pessoas, magnetômetros para inspeções de raios-x e físicas.
• Amplo espaço para encontro de grupos no Parque Olímpico e para os caminhos de dispersão e para os locais dos eventos esportivos.
• Saída e arranjos de evacuação de emergência de alta capacidade.
O projeto também busca oferecer ampla acessibilidade a todos os usuários do complexo. O parque é organizado, essencialmente, no nível térreo, o que facilita a movimentação de espectadores e de atletas, tendo em vista também a realização dos Jogos Paraolímpicos. As rampas e ondulações apresentam a menor inclinação possível (cerca de 1:60 ou menos).
EQUIPE DA AECOM
• Bill Hanway
Responsável – Arquitetura / Masterplan
• Daniel Gusmão
Autor do Projeto – Arquitetura / Masterplan
• Jonathan Rose
Arquitetura / Masterplan
• Joaquim Pujol
Arquitetura de Esportes Aquáticos
• Sam Wright
Arquitetura – COT Halls
• Andrew Jones
Coordenação Geral – Planejamento/ Masterplan
• Graham Goymour
Coordenador de Desenho Urbano
• Ken Carmichael
Coordenador de Infraestrutura
• Keyvan Rahmatabadi
Planejamento de Transporte
• Stefan Hiller
Consultor COT


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Fonte: Padrão
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