Estamos aquém da necessidade de formar bons engenheiros
 

João Antônio del Nero*

Torna-se cada vez mais importante o desenvolvimento da engenharia para dar suporte ao desenvolvimento econômico e social, em especial aos países emergentes.
A Coreia do Sul e a China lideram o grande salto tecnológico baseado na importância do trabalho de engenheiros. Possuem cerca de sete vezes mais engenheiros na população economicamente ativa que o Brasil. É um número parecido com aqueles de países adiantados como França e Estados Unidos.
As nossas escolas de engenharia estão formando número insuficiente de engenheiros e, como o professor José Roberto Cardoso, diretor da Politécnica, tem ressaltado, com exceção dos centros de excelência, a formação das Escolas de Engenharia  estão aquém das necessidades de formação de bons engenheiros.
Na minha experiência como professor da Politécnica, de estágios como aluno e intenso trabalho na área de engenharia e consultoria, volto um olhar à formação de engenheiros dos anos 50 e da atual. Julgo muito importante o alto nível que os cursos básicos devem ter nas escolas de engenharia para que o futuro profissional tenha capacidade de continuar estudando e acompanhar a evolução tecnológica.
Nos anos 50, não havendo doutores e catedráticos em número suficiente, era comum, em bancas de exame de cátedra, haver um engenheiro de notável saber na banca examinadora. Havia assim uma maior integração entre a prática profissional e o ensino.
Quando fui convidado a ser professor assistente pelo saudoso professor Nilo Amaral, na cadeira de concreto armado e protendido, tinha já larga experiência profissional por trabalhar intensamente em projetos de estrutura de edifícios, pontes, indústrias pesadas (participando desde os primeiros projetos da Cosipa, já como recém-formado), estações de tratamento, castelos de água, reforços de estrutura, de fundações e outros, por cerca de 8 anos. Lembro que dos anos 60 até hoje, o País a população brasileira teve um acréscimo de mais 140 milhões de pessoas e a participação da engenharia foi muito intensa.
O que ocorre hoje?  Minha Escola, a Politécnica, continua um centro de excelência, mas, embora o professor Cardoso tenha uma visão correta, é a comunidade, muito voltada para a formação de professores e pesquisadores, que muitas vezes se isola do ambiente externo.
Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comentou que embora profira palestras sobre sociologia em muitos centros de estudos importantes, mesmo no exterior, não é convidado para palestras na USP.
O mesmo se passa comigo, embora modesto professor, quando comparado ao nosso ilustre “uspiano”. Proferi inúmeras palestras no exterior, em escolas federais e particulares, sobre projetos e, mais recentemente, sobre o projeto da pista descendente da rodovia dos Imigrantes. Contudo, nunca recebi um convite da minha Escola para fazer palestra sobre o tema.
Dou estes exemplos para mostrar como é necessária a maior integração das áreas de ensino com as práticas profissionais em favor da formação de bons engenheiros para o mercado.
A engenheira Lueny Morell, (1) gerente de inovação da HP no Vale do Silício, membro da Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos e muito ativa no comitê nacional de ensino de engenharia, proferiu marcante palestra no Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, em que salientou que no mundo moderno é necessário, no ensino da engenharia, que os professores tenham didática e estimulem os estudantes à prática profissional. Ele definiu como da maior importância a associação e a integração entre escola e prática de engenharia. Nessa palestra ela provocou gargalhadas ao comentar um caso após uma formatura no MIT. Um professor com ar aloprado dirigiu-se aos alunos, ainda de beca. Ele estava com duas pilhas de lanterna na mão e com um fio com duas pontas. Solicitou a cinco alunos que acendessem a lâmpada, e só um conseguiu!  O fato, segundo a palestrante, é a grande necessidade de integração escola/prática profissional.
Eu estou mais que convencido que esta formação também vai estimular os alunos a concluírem os cursos e se integrarem, gostando mais da futura profissão e evitando a grande evasão de estudantes na conclusão dos cursos.
Isso é muito significativo, sobretudo agora quando, depois de duas décadas de crise, o mercado volta a crescer. A ação da área do governo também continua a ter importância estratégica para o desenvolvimento do País.
Mas, o que fazer, atualmente, considerando a formação insuficiente e inadequada de engenheiros? Talvez possam os cursos nas escolas serem feitos em duas etapas: 1ª etapa: Curso intenso nas ciências básicas, curso de história da engenharia e curso de sociologia  nos dois primeiros anos; terceiro  ano integral na matérias básicas de engenharia; 2ª etapa: Quarto ano de meio período nas disciplinas de engenharia; estágio obrigatório com supervisão de professores, em meio dia em meio dia por semana; quinto ano com estágio obrigatório de quatro dias por semana e um dia na escola para preparação de trabalho de conclusão de curso.
De qualquer modo, as empresas de engenharia devem receber estagiários e complementar os conhecimentos dos futuros engenheiros com cursos internos de formação, já que, somente as escolas não são suficientes para atender a demanda aquecida (2).
 

*O engenheiro João Antônio del Nero é presidente da Figueiredo Ferraz Consultoria de Projetos S.A.
 
(1)– Palestra no Seminário “5 Temas da Educação em Engenharia para atender desafios do Século XXI, em 03/12/2010.
(2)– A Empresa do Século XXI para desenvolver vantagens competitivas deve estimular seu pessoal a ter capacidade de adaptar, inovar e flexibilizar. O atributo essencial do engenheiro: habilidade de aprender e ser capaz de ensinar.  Para liderar equipe são necessárias, segundo Peter Senge, cinco atributos: ter domínio pessoal, modelos mentais, visão compartilhada, ensino e aprendizado em equipe e  raciocínio sistêmico.
 


sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Fonte: Estadão

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